
Publico o texto que apresentei no evento de lançamento do eixo temático definido para orientar o trabalho de professores e alunos do curso de Comunicação Social da Faculdade Araguaia durante o primeiro semestre de 2009.
Proposta pedagógica avançada, a adoção do o eixo temático busca a transversalidade entre disciplinas através da adoção de um determinado tema para discussão. Neste semestre, trata-se de pensar sobre as relações entre "Corpo, mídia e consumo".
No evento de abertura, ajudando a refletir sobre o assunto, também estiveram presentes os professores Marcelo Costa, Deyvisson Costa e Candice Marques. O texto que apresentei, como no título deste post, intitula-se "O corpo a ser conquistado".
"O corpo na mídia ordena o modelamento. O consumo moderno alimenta o corpo em diversos níveis. O comercial de cerveja é o exemplo clássico. Loira é a coloração da cerveja e da mulher. Mitologicamente, a mulher representa uma busca. O “Bar da Boa” ativa o desejo masculino pela mulher cativa, pelo reino da disponibilidade feminina total. A garçonete “gostosa” serve a cerveja e ativa a volúpia. O “Bar da Boa” é mais do que um cabaré. Nele, o homem cansado do trabalho encontra-se com outros homens atrás de reposição energética. A luta diária em busca do provimento do lar é recompensada com a ritualização da vitória. O “mulherão” é dado ao homem como troféu.
Ó musa. Juliana Paes, que consagrou no vídeo a figura da “boa”, amplia a lembrança de quem somos, enquanto brasileiros: resultado de um cruzamento cultural. O corpo brasileiro sofre com a artificialização imposta, já há alguns anos, pela febre do silicone nos seios, um recurso com origem norte-americana. O mito da América, ao norte, avista os seios portentosos como tesouro a ser conquistado por mãos masculinas. Um poema do poeta inglês John Donne, chamado “Elegia: indo para o leito”, traduzido por Augusto de Campos, musicado por Péricles Cavalcante (com gravação de Caetan Veloso, no disco Cinema Transcendental, de 1979), ilustra esta situação:
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes.[...]
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la.
A publicidade oferece tesouros. A moda é considerada fútil porque imbecilizaria a mulher, que somente teria olhos para o anseio infantil de jamais perder a condição de donzela pronta para raptar a lascívia masculina. A mulher acorda do seu sonho de menina quando vê que seu corpo perde o viço depois do parto. O homem, então, parte para a busca de terras inexploradas.
O corpo está, no inconsciente mítico, em analogia com a terra: ativa a partilha do chão, dando origem à posse. O mito do corpo perfeito na atualidade acentua o caráter dionisíaco do mundo ocidental. O deus grego Dionísio estimulava o rito da abundância por meio do sexo livre e do inebriamento provocado pelo álcool. O mito dionisíaco corresponde a um devotamento às forças criadoras do humano. O corpo acende o desejo no outro.
Tornar o corpo nu comum a todos é algo que a mídia sempre fez com desenvoltura. A exposição do sonho concretizado por alguns de possuir um corpo perfeito articula o Deus tornado corpo, através das modelos esculturais, à realidade física de cada indivíduo. A musa, que antes aparecia em sonhos ante o poeta, amplia com isso seu arco de influência.
O novo aumenta o aliançar entre o mito e a realidade. O artista comunica-se com o mundo das formas absolutas com destreza. Logo, a beleza que salta aos olhos através das imagens da mídia causa admiração em uma população cada vez mais disposta a ser também alvo de admiração através da internet. O olho público coleciona cada vez mais imagens de anônimos distinguidos por minutos de fama.
O corpo botoxicizado, siliconado ou retocado no photoshop costuma provocar polêmica quanto a seu grau de artificialidade. Porém, o artifício em favor da estética é tão antigo quanto a própria cultura. A arte serve para mentir sobre a vida. Os corpos embelezados por tecnologias típicas de uma era científico-industrial correspondem a um domínio hiper-humano da natureza. O comunicador social precisa assumir esta perspectiva diante do real por ele ao mesmo tempo construído e representado."
Na ilustração: estátua de Afrodite, deusa grega do amor.