18 Julho 2009

O belo


O belo
É

Tudo
Que

Se
Oculta

De
Teu

Olho.
Não

Queiras
Lápis

Da razão.
Olho

O abacate
E

Ganho
O belo.

O esconder
Da
Saia,
Afinal,

Não
Atiça

Mais
Que

O próprio
Corpo?

Ter

Elimina
O desejo.

Pelo
Contrário,

A nostalgia
Do que

Não
Houve

Como
Que

Cerra
Uma

Cortina,
Tornando

Esta
Nostalgia

Uma
Busca

Eterna.
Reféns

Estamos
Destes

Compromissos.

Uma
Lenta

Espera
Até

Que
O homem

Se
Reencontre

Consigo
Mesmo.
Na foto: pintura em vaso por Sílvia Goulart

06 Junho 2009

A verdade da ilusão


Não te
Iludo.

Há mais
Do

Que
Verdade

Em
Minhas

Mãos.
Deus

À verdade
O abismo deu,

Mas para
Não

Espalhar
Sangue

Em
Nossas

Mãos,
Recriou-nos

Na
Verdade

Da ilusão.
Na foto: pintura em cabaça, por Sílvia

05 Junho 2009

O tímido

Ouço
As

Vozes
E

Os ventos
Me atrapalham.

O
Peso

Da
Morte,

Um
Posso

Pouco.
É

Uma confusão
Fazer

Meu próprio
Retrato.

Posso,
Pai!

Não,
Não

Serás
Bonito

Moço.
Careço

De
Um

Não-olho.
Olho,

Ouço
E me

Despedaço
Em

Medo.
Ver

Orienta
E és

Por demais
Consciencioso.

O
Homem

Tímido
Não

Sabe
Da sua

Beleza.
Imagina-se

Pelado
E

Com
O pau inibido.

Não
Foi

Comer
A

Mãe
E da

Língua
Lhe

Sai
Fogo.

Fogo
Nos

Olhos
E

Por detrás
Do

Pensamento.
Você

Não
Dirá

O que
Quer.

Nem
Tua

Volúpia
Conquistará

O
Mundo.

Eu
Te condeno

A
Sufocar

Teu
Orgulho.

Olhai
O que

Te acompanha:
É

Teu medo.

Filosofia no bater da lata

Devido à sua pertinência, reproduzo trecho de artigo que publiquei neste blogue, no inicio de 2007. Saudoso texto, que reli hoje. Nele, estão minhas impressões sobre o batuque brasileiro, redigidas depois de participar de uma oficina de percussão em Porto Alegre/RS:


"A lata humaniza. Bater, hoje em dia, já não é mais ir embora, para se fazer a guerra, mas recolher-se aos quintais do paraíso da mulher, que já não é serpente, mas ninho de aves sensíveis e educadas, filosóficas - local de um modo afetivo de dominar o mundo."


Este dominar feminino do mundo é que me intriga. Como homem, confesso: não é simples entregar o poder às mulheres. No entanto, resta entender. Nos falta justamente, para tanto, uma filosofia do bater da lata, anterior ao verbo. Algo homérico e animalesco, ao mesmo tempo. Um pedido de passagem.

02 Junho 2009

Fogo letal homérico do lado lusíada

Léxico gostoso e profundo
De geraes que não conheço.
Glosa aumentada,
Festa de retalhos e de pássaros simples.
Pássaros verdes de perto da fonte.
Fogo letal homérico do lado lusíada,
Lento no ardor,
Requerendo pastos para o teu gado.
Conheci minudências.
Conheci guerras, o vértebro alheio.

Conheci Rosa.
O Rosa rês sonora.
Ô Rosa,
Pelo literal,
Cego místico,
Sertão marinho.
O largo está no canto
E no curral.
O vasto é místico querer:
Mulher-vaca.
A vaca sorrindo,
O maior anseio.

Retive nos bentos pastos
O sorriso retilíneo de
Um Rosa-vaca.
Gosto do mundo,
O cheiro de um querer de Dionísio.
Colo quente do mundo,
Festa quente,
Cabeça nua de beato crescendo,
Colo dionisíaco.
Crostas de ritos:
Louvações menos sacras,
Mais profanas.
O deus no meio da rua,
Entre coxas fogosas.

15 Maio 2009

Cirandeiro Dionísio



Ó manto colorido do norte.
O nome goiano sabe meu nome.
Com pouco medo Cristo
Coleciona ciúmes.
Carnavalizou-se o amor mariano e jesuítico.
Xangô corre atento.

Camões retorna mulher maruja e farrista.
Sábios negros ornamentam seu passo nativo.
O duro corte por detrás do ouvido
Carangueja o mugir com ritmo.
Ostra coletora e musicista circula
Com força o amor do artista.

A cidade sem tua onda não respira.
O antigo legado te acompanha.
Ó negra que me banha
Com água de beleza doce e mística.
O nome começa a literatura
Onde o astro harmoniza
Serpentes e fala augusta,
Onde o dionísio cirandeiro
Roda correto e arteiro.

Na foto: o "santo cirandeiro" no papelão; poema e pintura de Sílvia.

12 Maio 2009

Ave Maria do Mar


Poema de Sílvia, que me libera a alma:

"Fisgada na essência
Da seiva amarela,
Cruzo o oceano aberto
Como um véu celestial.
Ordeno em ondas os
Filetes d' água pura...
Me banho em gotas
De pedra anil.
Sou navegante.
Movimento meus quadris
Em direção ao cais.
Me orienta o mar!,
Que eu carrego uma
Cruz verde-esmeralda.
Quando o último e
Agudo apito soar,
Serei eu uma esquálida
Ave marítima."


Meu amor, o Mar nos uniu. Agora sei.


Na foto: "sobre a cabeça, os aviões"

11 Maio 2009

Maio

Maio navega. Maio começa no leve marulhar ativado pela expansão feminina. Orar pelos favores da Deusa é o recordar necessário. Os mulatos se enfeitam como galos sem espinhos.

08 Abril 2009

O medo maior



Nada adoça tanto o animal feroz que somos quanto a dor e a morte. O céu mitológico brasileiro espelha a coleção de vozes que escuta-se quando se acredita no mito. O arco ameríndio eleva a morte de uma maneira diferente da do arco cristão. Onde se pode ver espinhos, como no caso da coroa de Cristo, o mito indígena cria estrelas.



A flor do pequizeiro docilmente representa a morte em um mito carajá. O ar do Cerrado rotativamente adormece impregnado deste mito. O que se chama, aqui em Goiás, de “regional”, quando se fala dos gêneros musicais, espelha a lembrança deste mito. O antigo povo dono da terra sonha que do alimento celestial se faz o alimento do corpo.



O sertanejo, enquanto gênero musical, sonha com o lamento divino da cruz cravada no peito. O garoto das duplas, com seus trinados celestiais, anima garotas nas platéias. Como saber qual o mito que o governa, o cristão ou o indígena?



Num sábado recente, eu e Sílvia recebemos em nossa casa o cantor e compositor Rodrigo Mota Lins para um evento musicial e gastronômico que terminou, do ponto de vista mitológico, em um alimentar com porções de estrelas o coração amplo de todos que ali estavam. O sertão mítico brasileiro ainda não foi amplamente desbravado pela arte - e, no entanto, tem conseguido permanecer no imaginário popular hoje amplamente forjado pela mídia. O amor de um mito caboclo nos uniu.



Também presente naquela noite, meu aluno Fabrizio Giuvanucci nos havia presenteado com o antológico Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges. O amplo morrer de Milton nesse disco, gravado em 1972, reflete a dor de um país conflagrado pela luta entre o governo militar e a esquerda articulada em torno de estratégias de resistência, como a guerrilha.



Como a arte ecoa o tempo histórico e o mítico, a Canção da América, que Milton gravou mais tarde, no álbum Sentinela, de 1980, evidencia uma certa expectativa pela volta não apenas dos que foram para o exílio em decorrência da ditadura como também de uma negra ama que alimentasse o mundo com sua riqueza em ouro mítico. Fala a letra da música:





Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou ao ver o seu amigo partir.





“A canção que na América” Milton ouviu era a mesma que hoje se insinua no crescente movimento de resgate dos ritmos regionais brasileiros que, em Goiânia, recebe a coloração típica do Cerrado. O povo alimenta-se de todo alimento dionisíaco que erija bons mitos. O dionisíaco verte um novo momento de criação musical brasileira. Em San Vicente, uma das faixas de Clube da Esquina, Milton prevê sentir um “sabor de chocolate”:





Coração americano
Acordei de um sonho estranho
Um gosto de vidro e corte
Um sabor de chocolate
No corpo e na cidade
Um sabor de vida e morte.





Os versos assemelham-se à oração que Rodrigo, em uma de suas composições, dirige à “mãe natureza” alimentando o Brasil e o mundo com pés de frutas do Cerrado. O corpo colorido das florestas brasileiras cativa o sonho da população mundial. O amor universal tornou-se um projeto histórico cristão. No entanto, somente a floresta amazônica, enquanto musa/moça inspiradora, será capaz de renovar o sonho da paz.



Os Kamayurá, povo indígena do Alto Xingu, relacionam a flor do pequizeiro à genitália feminina. A divindade adoçou o cheiro da flor. A moda do gosto pelo Brasil, no exterior (o que inclui a música) evitará a destruição do Cerrado e, por consequência, da Amazônia. Quando o mito de um povo cresce, os hábitos mudam. O mito brasileiro da docilidade do seu povo esgotou-se frente à guerra social. O sonho de uma América como revolução renova-se. Pintar o novo amor é homenagear o guerrear caboclo e brasileiro. Rodrigo canta perguntando: “É um pé de quê” o que nasce no Cerrado? É um pé de carne e glosa de o nosso povo.




Na ilustração: foto do pequi

25 Março 2009

Imensos de solidão

O rito oracular, sonhar com mitos. A mãe Negra amplia o arco. Cabe a nós decifrá-la. Poucos terão sucesso. É vasto o seu manto, é notável o seu terreiro. Nomes brotarão em novos continentes imensos de solidão.

13 Março 2009

O corpo a ser conquistado


Publico o texto que apresentei no evento de lançamento do eixo temático definido para orientar o trabalho de professores e alunos do curso de Comunicação Social da Faculdade Araguaia durante o primeiro semestre de 2009.


Proposta pedagógica avançada, a adoção do o eixo temático busca a transversalidade entre disciplinas através da adoção de um determinado tema para discussão. Neste semestre, trata-se de pensar sobre as relações entre "Corpo, mídia e consumo".


No evento de abertura, ajudando a refletir sobre o assunto, também estiveram presentes os professores Marcelo Costa, Deyvisson Costa e Candice Marques. O texto que apresentei, como no título deste post, intitula-se "O corpo a ser conquistado".



"O corpo na mídia ordena o modelamento. O consumo moderno alimenta o corpo em diversos níveis. O comercial de cerveja é o exemplo clássico. Loira é a coloração da cerveja e da mulher. Mitologicamente, a mulher representa uma busca. O “Bar da Boa” ativa o desejo masculino pela mulher cativa, pelo reino da disponibilidade feminina total. A garçonete “gostosa” serve a cerveja e ativa a volúpia. O “Bar da Boa” é mais do que um cabaré. Nele, o homem cansado do trabalho encontra-se com outros homens atrás de reposição energética. A luta diária em busca do provimento do lar é recompensada com a ritualização da vitória. O “mulherão” é dado ao homem como troféu.



Ó musa. Juliana Paes, que consagrou no vídeo a figura da “boa”, amplia a lembrança de quem somos, enquanto brasileiros: resultado de um cruzamento cultural. O corpo brasileiro sofre com a artificialização imposta, já há alguns anos, pela febre do silicone nos seios, um recurso com origem norte-americana. O mito da América, ao norte, avista os seios portentosos como tesouro a ser conquistado por mãos masculinas. Um poema do poeta inglês John Donne, chamado “Elegia: indo para o leito”, traduzido por Augusto de Campos, musicado por Péricles Cavalcante (com gravação de Caetan Veloso, no disco Cinema Transcendental, de 1979), ilustra esta situação:




Deixa que minha mão errante adentre.


Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.


Minha América! Minha terra à vista,


Reino de paz, se um homem só a conquista,


Minha mina preciosa, meu império,


Feliz de quem penetre o teu mistério!


Liberto-me ficando teu escravo;


Onde cai minha mão, meu selo gravo.


Nudez total! Todo o prazer provém


De um corpo (como a alma sem corpo) sem


Vestes.[...]


Como encadernação vistosa, feita


Para iletrados a mulher se enfeita;


Mas ela é um livro místico e somente


A alguns (a que tal graça se consente)


É dado lê-la.




A publicidade oferece tesouros. A moda é considerada fútil porque imbecilizaria a mulher, que somente teria olhos para o anseio infantil de jamais perder a condição de donzela pronta para raptar a lascívia masculina. A mulher acorda do seu sonho de menina quando vê que seu corpo perde o viço depois do parto. O homem, então, parte para a busca de terras inexploradas.


O corpo está, no inconsciente mítico, em analogia com a terra: ativa a partilha do chão, dando origem à posse. O mito do corpo perfeito na atualidade acentua o caráter dionisíaco do mundo ocidental. O deus grego Dionísio estimulava o rito da abundância por meio do sexo livre e do inebriamento provocado pelo álcool. O mito dionisíaco corresponde a um devotamento às forças criadoras do humano. O corpo acende o desejo no outro.


Tornar o corpo nu comum a todos é algo que a mídia sempre fez com desenvoltura. A exposição do sonho concretizado por alguns de possuir um corpo perfeito articula o Deus tornado corpo, através das modelos esculturais, à realidade física de cada indivíduo. A musa, que antes aparecia em sonhos ante o poeta, amplia com isso seu arco de influência.


O novo aumenta o aliançar entre o mito e a realidade. O artista comunica-se com o mundo das formas absolutas com destreza. Logo, a beleza que salta aos olhos através das imagens da mídia causa admiração em uma população cada vez mais disposta a ser também alvo de admiração através da internet. O olho público coleciona cada vez mais imagens de anônimos distinguidos por minutos de fama.


O corpo botoxicizado, siliconado ou retocado no photoshop costuma provocar polêmica quanto a seu grau de artificialidade. Porém, o artifício em favor da estética é tão antigo quanto a própria cultura. A arte serve para mentir sobre a vida. Os corpos embelezados por tecnologias típicas de uma era científico-industrial correspondem a um domínio hiper-humano da natureza. O comunicador social precisa assumir esta perspectiva diante do real por ele ao mesmo tempo construído e representado."
Na ilustração: estátua de Afrodite, deusa grega do amor.

07 Março 2009

Terreiro

Arranja teu terreiro
De música falada.

Catador de papel




O astro ordena o corpo
E eu cato papel com meus olhos.
A rua anterior ao século
Sem máscara de Noel.
Escutar é respirar
Inteiro amor
Ao catador de papel.

02 Março 2009

Caboclo


Ó mana.
Escrevo em teu caboclo cocar
De nome colorido.
Estou enluarado e dono do teu mito.
Estou corado e escrito.
Como o passo é lento
E o corpo
Em pouco tempo
Em coração ensina
A ser caboclo.


O lado antigo é amplo sobre o cerrado.
O manto recobre o picadeiro.
O alto canto estirado.
Como os pássaros cobrem o corpo
Com adornos de arte
Aliando com adoração e força
O amor à morte.


Ó mana.
A saudade da casa
É a corrida por salvar
A floresta incendiada.
O Brasil cativa, canta e borda.
A boa onda navega.
O ato enleva sonoramente
A negra índia obscura e bondosa.

09 Fevereiro 2009

A fiadeira


A Mão
Da
Fiadeira
Fia.

O mago
Tece

Histórias.
A imortal

Fiadeira
Me

Acolhe.
Ó fio

De renda
Dourada.

Quero
Um

Véu
Que

Me enobreça.
Estive

Tão aflito.
Guirlandas,

Bordados.
Sou

Mestre
Dos

Fios
Arranjado.

Orno.
É como

Um altar
Barroco.

São estrelas
No

Caminho.
Cada

Ponto
Do meu

Cérebro
Se estende
Pelo chão.
Ali

Me vejo.
É o fundo

Do
Lago

Refletido.
Oriento.

Sigam
Meu canto.



Ilustração: A fiadeira, de Jean-François Millet

03 Fevereiro 2009

A raiz no telhado e no terreiro



O rei está moço
E ganha ovos de moça.
Anda a pé,
Num deserto.
Sabe-o o mito.
Cristo negro ou caboclo.
Corre a lenda,
Corre o livro.
Municias o rio com o vento.
A aurora é vagina e tambor.
Colo o grau marujo.
Cristo está percutido
Em ovários e astrônomos.
O casto grau do Brasil
Ao norte e amazônico.


A água é doce e olímpica,
Há grades e muros no país,
Passam cantos e pássaros.
A raiz se esconde
No telhado e no terreiro.
Há credos dentro do castelo
De um mito.
Há noivos e há justiça.
Nada corre em desalento.
O outorgado rei em mim
Habita.

01 Fevereiro 2009

O caminho das Índias para um novo Brasil



O medo povoa imaginários. Sonhamos a partir da falta. O ângulo novo que cada cultura instaura de amor erótico reflete o medo ancestral instaurado, por sua vez, pelo mito. A novela “Caminho das Índias”, que começa agora a ser transmitida pela Rede Globo, acenderá o temor dos brasileiros aos deuses indianos? O conhecimento da divindade jamais acontece longe da música. O arco a partir do qual o Brasil surge como nação aponta na direção do desconhecido.

O mito novo aquece uma cultura quando o medo impera. O antigo retorna. Como na música, a telenovela atira a alegria de romances para o futuro. O Brasil pensa sobre si mesmo quando assiste à telenovela. Com isso, começa a atirar flechas em direção ao futuro. Em “Caminho das Índias”, o mito canta o ardor indiano em favor do recato sexual. O arquétipo da mulher indiana continua sendo o segredo de um corpo coberto por véus.

O recato feminino é o contrário do que prega uma mitologia brasileira, onde, apesar do catolicismo oficialmente hegemônico, imperam divindades femininas erotizadas, como no caso de alguns orixás pertencentes à nossa matriz religiosa africana. E, mais ainda, como no caso de divindades pertencentes ao panteão gerado pelo cruzamento das mitologias africana e indígena. O corpo, nestas mitologias, comumente é mostrado nu. Juliana Paes, na novela, interpreta a mulher típica indiana, através da personagem Maya. Porém, seu amor aspira a uma quebra nos costumes da tradição. O amor romântico a leva para a forma ocidental de casamento, onde o ato do enamoramento responde ao impulso da paixão.

Sexualmente falando, o casamento é responsável, em qualquer cultura, por ampliar a área de castidade da corporificação dos mitos. Significa que o ato sexual, praticado com devoção, entroniza o parceiro: o noivo torna-se um deus; e a noiva, uma deusa. A proteção ao parceiro exige conter uma possível fuga em direção a outro casamento. Neste contexto, o processo pelo qual o Brasil entronizou a mulher nua (aberta a todos, como se pode ver nos desfiles de Carnaval) torna-se de compreensão mais nítida.

A brasileira típica, por mais que se conteste, é representada pela morena de quadris avantajados, muito semelhante, a propósito, a Juliana Paes. A filha natural do Brasil é essa mulher. O ato romântico anterior ao casamento, no Brasil, encontra-se amplamente sexualizado. Essa sociedade casa-se longinquamente com o mito da abundância. A filósofa Marilena Chauí relata o quanto o mito fundador brasileiro corporifica a idéia da existência possível de uma terra sem males – o paraíso, ou eldorado – há muito tempo prometida. À época do descobrimento do Brasil, Portugal havia descoberto também o “caminho das Índias”, uma rota comercial marítima nova acima das possibilidades tecnológicas de então. Havia a crença de que o Brasil poderia representar a posse, para os portugueses, de uma nova e promissora Índia.

O manto que cobre a mulher indiana não abole o desejo. Pelo contrário. No Brasil, a música cadenciada ordena o casto relacionamento com as mulatas do samba. A mulher é soberana a ponto de acuar o macho. Com corte profundo sobre o arquétipo oriental de contenção do desejo, o Brasil instaura o medo por um fruto não proibido. O alto respeito à mulher, à casa e à terra (à natureza, pode-se dizer, em apenas uma palavra), que ainda não vigora em nossa pátria, poderá nos elevar à condição de uma civilização altamente desenvolvida, a exemplo da própria Índia. Ver a novela, agora, pode estar sendo o alimento necessário à valorização de nossa própria cultura.

O Rio de Janeiro continua a ser o cenário “oficial” das novelas da Globo. O mito da terra da beleza encontra-se ancorado na Baía de Guanabara. O medo instaurado na antiga capital pela guerra do tráfico repercute nessa mudança de cenário da novela? O mito artisticamente se constrói. O caminho das Índias proposto por Glória Perez é inspirador. Talvez nos ajude a finalmente encontrar a rota de um Brasil profundo amplamente representado em tradições onde o colonizado perde a escravatura, passando a conduzir o cortejo, e onde a mulher anda com belos mantos que tudo mostram.

20 Janeiro 2009

Esporão negro, revelai teu povo



Nego escuro-queimado,
Fogo de labareda,
O dono do mato é teu rei:
Quero tua pilastra.
Fostes crucificado,
Negro escuro do mato.

Sonho com isso:
A pele escura.
Cor do mito angélico,
Nova Jerusalém foi a Bahia.
A gostosa culpa dos padres
Endomoniando-se, pelados
E cativos da sensualidade
Índia e negra.

Ah, escuridão marítima.
A cruzada portuguesa rodou o mundo.
Massa inculta e franca,
Toda a tua laica vertigem
É sabedoria celeste,
Teu santo currar-se,
Tua alegria boba.

A moça é receptáculo da cruz.
A malícia urbana me sublima.
Há mortes de galos na cruz.
Esporão negro, revelai teu povo.
Seu manto se faz de latas e
Sem-nomes de pequenos entulhos,
Em escala industrial.

16 Janeiro 2009

Disco oracular


Disco oracular,
Música ressonhada
Em mistura de blecks,
Paus e verdades estrangeiras.
Estranho caldeirão cultural,
Cordão de possante androginia,
Porta-bandeira do mundo.


A porteira é grande,
Todo mundo passa.
O verdadeiro músico é não-restritivo
Em seus batuques.
Oito massas suaves
De toques angélicos,
Orientais.


Poesia, põe-te no passo
Destas procissões conjuntas.
Põe tua mesa na curiosa
Noite musical que não atordoa
Os vizinhos,
Nem os cansa, mas acorda-nos
Bons filhos e
Condena maus sonhos.


Volição da massa:
Ser inclassificável,
High tech.


Soraia, volume dos seios.
É portentoso o teu menino.
Minha suntuosa reboladora,
Mortalmente africana.
Decana musa do gozo
No areal de Pessoa.
Ensina-me a ser mole água,
Que funde totalidade marítima
De todas as euforias sonoras.
Na ilustração: maracatu rural

13 Janeiro 2009

Flora de maio



Ai de tudo,
Dona do manto dolente,
Flora de maio.
Melhor sonar do mor dócil marulho.


Concha achou o marujo.
Grotões de um mar de sussurros.
O lado gostoso soltava vozes quentes
De bonificada filha.
O ato molhado de povoar o futuro
Perdoava o roçar-se de pedra.


Soraia, pranto solar.
Estica os cabelos.
Sonhos solares.
A cada gota de teu mênstruo
Implodi do laço, a vincular-nos,
O domínio.


Saio.
Solidão do músico.
A concha rompe em vozes.
Volição do mar:
Segredar novas sinfonias,
Noivas ordenhais.


Moreno,
Roça teu ouvido no pasto portentoso.
Romeiro, massa do mundo,
De tua cópula dourada e sem feridas
Depende a nova forma de tudo.
Na ilustração: orixá feminino Oxum.

06 Janeiro 2009

Errática



Vivo e mereço lento alvorecer.
Olho o porto sossegado do mistério.
Moreno, Homero,
Retrato do moço curvado e fogoso,
Ciclo do sagrado fogo,
Receptáculo.
Moreno,
Sou mulher do espaço luminoso,
Ângulo mitológico.
Mênstruo sonhado,
Sexo de antes do tempo,
Disto um milhão de anos.


Errática.
És errática como sonho,
O melhor sonho.
Não fazes nada, és tudo.
Dominas a imagem.
Doce e distante.
Mar anterior ao existente.
Símbolo, potência de mundo.
Os quadros organizam
Tua sonoridade:
Bela como o vaso do que se perdeu.
Meu sono de verde dominação
Despe-me do homem animal.
Cresço no manto de teus desejos.

05 Janeiro 2009

A glosa (ou o gozar com os ouvidos)




Glosar-se. Procurei o que é glosa no dicionário. Eu havia usado duas vezes essa palavra, nos poemas. Pelo dicionário, glosa é: 1. nota explicativa de palavra ou texto; 2. anotação marginal ou interlinear; 3. crítica; 4. composição poética a que servem quatro versos de uma quadra.

A luz do abacate é o meu glosar-se poético. Aqui estará a crítica, mas crítica estilo modinha, menos chata e arrependida. Glosa. Acho que o estilo poético vem do Caetano. Tem aquela música, "Boas vindas" (sua mãe e eu, seu irmão e eu...). No meio das boas vindas ao novo filho Zeca, Caetano resume as coisas boas da vida (eu digo que ela é gostosa) em versos que anunciam à criança que chega o que a vida tem: o medo, a rosa, a prosa, a poesia, a glosa.

A glosa, eu digo que ela é gostosa. Pinto coisas nos poemas que não sei de onde vêm. Como no verso em que se diz de um "glosar-se rumoroso, homérico".

O glosar-se rumoroso. Quero este rumo. Ricos de Homero devem ser os países. O glosar-se seria este amor em forma de verbo. Chutei no verso da glosa. A glosa do dicionário é uma. A glosa que ficara em meu ouvido, através da música do Caetano, totalmente outra.

A crônica é doce? As uvas, quantas podem estar estragadas? O véu da noiva protege? Parece-me que o bom verso surge por uma espécie de orientação auricular, como num solfejo. A beleza nos habita como desejo por plenitude. Meu processo criativo diz isto: o normal é um gozar com os ouvidos.

A vida leva-nos a esta busca por espelhos sonoros. As palavras, os versos, um gênero inteiro. Mais recentemente, o que era basicamente memória auditiva vincula-se à visualidade da televisão e do cinema.

O menor ponto sonoro ativa mil beijos na manhã do mundo. O ser ganha vocação pela originalidade de seu nome. A vida só pode ser boa. Cada palavra, então, guarda uma rosa, como uma noiva a ser desposada. A "glosa" brota da nossa verve de pronunciar o mundo como vaso que comportará um significado. Mas sua bela sonoridade já estava antes pronta.
Na ilustração, capa do disco Circuladô (1991), de Caetano Veloso, onde consta a mencionada música, "Boas vindas".