21 Janeiro 2010
11 Janeiro 2010
A rua antiga em Goiás
O artista ama a amplidão. A norma a partir da qual se cria é a negação da mãe. Freud a partir da tragédia grega “Édipo Rei”, de Sófocles, expõe o inconsciente humano em sua devoção pela mulher. Logo, a mulher vale a pena das mais duras provas. A marcha dionisíaca corporifica-se na exposição do corpo nu feminino.
Dionísio, na Grécia, foi o deus da liberação sexual. Seus ritos podiam ser violentos e o limite encontrava-se no risco da incestuosidade. Goiás artisticamente representa para o Brasil o fim de uma busca incestuosa: a forma dionisíaca dos ritos locais aspira a uma liberação contida da mulher. A liberdade a que aspiramos enquanto nação fortalece o ícone famoso da “namoradeira”.
Oradeiras eram as mulheres de um tempo definitivamente anterior ao nosso. Rezava-se a uma nossa mãe espiritual em nome da família. A educação das meninas-moças não favorecia a frivolidade sexual. A sensualidade, e também o desprezo oficial, ficavam reservados à mulher fruto da corrupção masculina. Via de regra, essa mulher era negra ou indígena, ou uma mistura de ambas. O mito da mulata tem origem nesse processo.
O boi de Pirenópolis lembra-nos o violento processo de domesticação masculina. A ritualidade renova o medo antigo que a noiva pura (virgem) deveria sentir em seu corpo intocado durante a noite de núpcias. A mitologia brasileira é rica nessa imagem. A disputa nas Cavalhadas, por cristãos e mouros, se dá pelo direito de posse de uma terra que sirva à procriação. O mito do livro amoroso subsiste: acende a força da crença na utopia da paz. O reino do Goiás profundo, tão íntimo de Cora Coralina, diz respeito a estas realidades do inconsciente coletivo. A saga de Cora, reconhecida apenas ao final da vida como o mais lírico som capaz de brotar do chão local, alimenta-se desta rua infinita: o lugar que, mitologicamente, dá origem ao Brasil.
A visão daquilo que é “velho” em Goiás enfeita todo e qualquer plano de futuro. A moça debruçada na janela que Pirenópolis vende como artesanato local, e forma tipicamente goiana, leva o masculino a sonhar com a fabricação do porvir. A forma da namoradeira é sugestiva, então, do nome novo que pode receber o processo de exploração da terra – leia-se, do Cerrado – e seus ricos porém finitos recursos. A expectativa da moça à janela acende um necessário romantismo da parte daqueles que a cortejam.
Reis, na mitologia africana, são menos santificados. A congada em Catalão liga a rua à permanência da divindade negra. O rito de homenagem à Nossa Senhora do Rosário, nessa festa, fortalece o papel da mulher junto ao Divino Pai Eterno. A namoradeira na janela magicamente ritualiza a deusa seminua. Nada é capaz de amorizar o homem mais do que essa simbologia, ao mesmo tempo santa e profana. Na atualidade, a mesma função ritual é cumprida na rua renovada pela internet. O moralismo necessário à contenção do instinto dionisíaco de mistura cultural jovialmente ascende a uma condição de literatura rica em imagens sexualmente provocantes. A nova namoradeira está nas galerias de fotos, por exemplo, do Orkut. Herança cultural negra, o rito das congadas servem à mistura étnico-religiosa. Levemente, o medo se esvanece. O campo aberto por uma volta ao passado reconstitui o mito brasileiro antigo do monumento fincado no centro de Goiânia, onde as três raças lentamente fundem-se em uma só. A festa fornece a Roma Escura.
18 Julho 2009
O belo

06 Junho 2009
A verdade da ilusão
05 Junho 2009
O tímido
As
Vozes
E
Os ventos
Me atrapalham.
O
Peso
Da
Morte,
Um
Posso
Pouco.
É
Uma confusão
Fazer
Meu próprio
Retrato.
Posso,
Pai!
Não,
Não
Serás
Bonito
Moço.
Careço
De
Um
Não-olho.
Olho,
Ouço
E me
Despedaço
Em
Medo.
Ver
Orienta
E és
Por demais
Consciencioso.
O
Homem
Tímido
Não
Sabe
Da sua
Beleza.
Imagina-se
Pelado
E
Com
O pau inibido.
Não
Foi
Comer
A
Mãe
E da
Língua
Lhe
Sai
Fogo.
Fogo
Nos
Olhos
E
Por detrás
Do
Pensamento.
Você
Não
Dirá
O que
Quer.
Nem
Tua
Volúpia
Conquistará
O
Mundo.
Eu
Te condeno
A
Sufocar
Teu
Orgulho.
Olhai
O que
Te acompanha:
É
Teu medo.
Filosofia no bater da lata
"A lata humaniza. Bater, hoje em dia, já não é mais ir embora, para se fazer a guerra, mas recolher-se aos quintais do paraíso da mulher, que já não é serpente, mas ninho de aves sensíveis e educadas, filosóficas - local de um modo afetivo de dominar o mundo."
Este dominar feminino do mundo é que me intriga. Como homem, confesso: não é simples entregar o poder às mulheres. No entanto, resta entender. Nos falta justamente, para tanto, uma filosofia do bater da lata, anterior ao verbo. Algo homérico e animalesco, ao mesmo tempo. Um pedido de passagem.
02 Junho 2009
Fogo letal homérico do lado lusíada
De geraes que não conheço.
Glosa aumentada,
Festa de retalhos e de pássaros simples.
Pássaros verdes de perto da fonte.
Fogo letal homérico do lado lusíada,
Lento no ardor,
Requerendo pastos para o teu gado.
Conheci minudências.
Conheci guerras, o vértebro alheio.
Conheci Rosa.
O Rosa rês sonora.
Ô Rosa,
Pelo literal,
Cego místico,
Sertão marinho.
O largo está no canto
E no curral.
O vasto é místico querer:
Mulher-vaca.
A vaca sorrindo,
O maior anseio.
Retive nos bentos pastos
O sorriso retilíneo de
Um Rosa-vaca.
Gosto do mundo,
O cheiro de um querer de Dionísio.
Colo quente do mundo,
Festa quente,
Cabeça nua de beato crescendo,
Colo dionisíaco.
Crostas de ritos:
Louvações menos sacras,
Mais profanas.
O deus no meio da rua,
Entre coxas fogosas.
15 Maio 2009
Cirandeiro Dionísio

Ó manto colorido do norte.
O nome goiano sabe meu nome.
Com pouco medo Cristo
Coleciona ciúmes.
Carnavalizou-se o amor mariano e jesuítico.
Xangô corre atento.
Sábios negros ornamentam seu passo nativo.
O duro corte por detrás do ouvido
Carangueja o mugir com ritmo.
Ostra coletora e musicista circula
Com força o amor do artista.
O antigo legado te acompanha.
Ó negra que me banha
Com água de beleza doce e mística.
O nome começa a literatura
Onde o astro harmoniza
Serpentes e fala augusta,
Onde o dionísio cirandeiro
Roda correto e arteiro.
Na foto: o "santo cirandeiro" no papelão; poema e pintura de Sílvia.
12 Maio 2009
Ave Maria do Mar

Da seiva amarela,
Cruzo o oceano aberto
Como um véu celestial.
Ordeno em ondas os
Filetes d' água pura...
Me banho em gotas
De pedra anil.
Sou navegante.
Movimento meus quadris
Em direção ao cais.
Me orienta o mar!,
Que eu carrego uma
Cruz verde-esmeralda.
Quando o último e
Agudo apito soar,
Serei eu uma esquálida
Ave marítima."
11 Maio 2009
Maio
08 Abril 2009
O medo maior

A flor do pequizeiro docilmente representa a morte em um mito carajá. O ar do Cerrado rotativamente adormece impregnado deste mito. O que se chama, aqui em Goiás, de “regional”, quando se fala dos gêneros musicais, espelha a lembrança deste mito. O antigo povo dono da terra sonha que do alimento celestial se faz o alimento do corpo.
O sertanejo, enquanto gênero musical, sonha com o lamento divino da cruz cravada no peito. O garoto das duplas, com seus trinados celestiais, anima garotas nas platéias. Como saber qual o mito que o governa, o cristão ou o indígena?
Num sábado recente, eu e Sílvia recebemos em nossa casa o cantor e compositor Rodrigo Mota Lins para um evento musicial e gastronômico que terminou, do ponto de vista mitológico, em um alimentar com porções de estrelas o coração amplo de todos que ali estavam. O sertão mítico brasileiro ainda não foi amplamente desbravado pela arte - e, no entanto, tem conseguido permanecer no imaginário popular hoje amplamente forjado pela mídia. O amor de um mito caboclo nos uniu.
Também presente naquela noite, meu aluno Fabrizio Giuvanucci nos havia presenteado com o antológico Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges. O amplo morrer de Milton nesse disco, gravado em 1972, reflete a dor de um país conflagrado pela luta entre o governo militar e a esquerda articulada em torno de estratégias de resistência, como a guerrilha.
Como a arte ecoa o tempo histórico e o mítico, a Canção da América, que Milton gravou mais tarde, no álbum Sentinela, de 1980, evidencia uma certa expectativa pela volta não apenas dos que foram para o exílio em decorrência da ditadura como também de uma negra ama que alimentasse o mundo com sua riqueza em ouro mítico. Fala a letra da música:
Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou ao ver o seu amigo partir.
“A canção que na América” Milton ouviu era a mesma que hoje se insinua no crescente movimento de resgate dos ritmos regionais brasileiros que, em Goiânia, recebe a coloração típica do Cerrado. O povo alimenta-se de todo alimento dionisíaco que erija bons mitos. O dionisíaco verte um novo momento de criação musical brasileira. Em San Vicente, uma das faixas de Clube da Esquina, Milton prevê sentir um “sabor de chocolate”:
Coração americano
Acordei de um sonho estranho
Um gosto de vidro e corte
Um sabor de chocolate
No corpo e na cidade
Um sabor de vida e morte.
Os versos assemelham-se à oração que Rodrigo, em uma de suas composições, dirige à “mãe natureza” alimentando o Brasil e o mundo com pés de frutas do Cerrado. O corpo colorido das florestas brasileiras cativa o sonho da população mundial. O amor universal tornou-se um projeto histórico cristão. No entanto, somente a floresta amazônica, enquanto musa/moça inspiradora, será capaz de renovar o sonho da paz.
Os Kamayurá, povo indígena do Alto Xingu, relacionam a flor do pequizeiro à genitália feminina. A divindade adoçou o cheiro da flor. A moda do gosto pelo Brasil, no exterior (o que inclui a música) evitará a destruição do Cerrado e, por consequência, da Amazônia. Quando o mito de um povo cresce, os hábitos mudam. O mito brasileiro da docilidade do seu povo esgotou-se frente à guerra social. O sonho de uma América como revolução renova-se. Pintar o novo amor é homenagear o guerrear caboclo e brasileiro. Rodrigo canta perguntando: “É um pé de quê” o que nasce no Cerrado? É um pé de carne e glosa de o nosso povo.
25 Março 2009
Imensos de solidão
13 Março 2009
O corpo a ser conquistado

"O corpo na mídia ordena o modelamento. O consumo moderno alimenta o corpo em diversos níveis. O comercial de cerveja é o exemplo clássico. Loira é a coloração da cerveja e da mulher. Mitologicamente, a mulher representa uma busca. O “Bar da Boa” ativa o desejo masculino pela mulher cativa, pelo reino da disponibilidade feminina total. A garçonete “gostosa” serve a cerveja e ativa a volúpia. O “Bar da Boa” é mais do que um cabaré. Nele, o homem cansado do trabalho encontra-se com outros homens atrás de reposição energética. A luta diária em busca do provimento do lar é recompensada com a ritualização da vitória. O “mulherão” é dado ao homem como troféu.
O corpo está, no inconsciente mítico, em analogia com a terra: ativa a partilha do chão, dando origem à posse. O mito do corpo perfeito na atualidade acentua o caráter dionisíaco do mundo ocidental. O deus grego Dionísio estimulava o rito da abundância por meio do sexo livre e do inebriamento provocado pelo álcool. O mito dionisíaco corresponde a um devotamento às forças criadoras do humano. O corpo acende o desejo no outro.
07 Março 2009
Catador de papel
02 Março 2009
Caboclo

Escrevo em teu caboclo cocar
De nome colorido.
Estou enluarado e dono do teu mito.
Estou corado e escrito.
Como o passo é lento
E o corpo
Em pouco tempo
Em coração ensina
A ser caboclo.
O lado antigo é amplo sobre o cerrado.
O manto recobre o picadeiro.
O alto canto estirado.
Como os pássaros cobrem o corpo
Com adornos de arte
Aliando com adoração e força
O amor à morte.
Ó mana.
A saudade da casa
É a corrida por salvar
A floresta incendiada.
O Brasil cativa, canta e borda.
A boa onda navega.
O ato enleva sonoramente
A negra índia obscura e bondosa.
09 Fevereiro 2009
A fiadeira

Da
Fia.
Tece
A imortal
Ilustração: A fiadeira, de Jean-François Millet
03 Fevereiro 2009
A raiz no telhado e no terreiro

O rei está moço
E ganha ovos de moça.
Anda a pé,
Num deserto.
Sabe-o o mito.
Cristo negro ou caboclo.
Corre a lenda,
Corre o livro.
Municias o rio com o vento.
A aurora é vagina e tambor.
Colo o grau marujo.
Cristo está percutido
Em ovários e astrônomos.
O casto grau do Brasil
Ao norte e amazônico.
A água é doce e olímpica,
Há grades e muros no país,
Passam cantos e pássaros.
A raiz se esconde
No telhado e no terreiro.
Há credos dentro do castelo
De um mito.
Há noivos e há justiça.
Nada corre em desalento.
O outorgado rei em mim
Habita.
01 Fevereiro 2009
O caminho das Índias para um novo Brasil

O medo povoa imaginários. Sonhamos a partir da falta. O ângulo novo que cada cultura instaura de amor erótico reflete o medo ancestral instaurado, por sua vez, pelo mito. A novela “Caminho das Índias”, que começa agora a ser transmitida pela Rede Globo, acenderá o temor dos brasileiros aos deuses indianos? O conhecimento da divindade jamais acontece longe da música. O arco a partir do qual o Brasil surge como nação aponta na direção do desconhecido.
O mito novo aquece uma cultura quando o medo impera. O antigo retorna. Como na música, a telenovela atira a alegria de romances para o futuro. O Brasil pensa sobre si mesmo quando assiste à telenovela. Com isso, começa a atirar flechas em direção ao futuro. Em “Caminho das Índias”, o mito canta o ardor indiano em favor do recato sexual. O arquétipo da mulher indiana continua sendo o segredo de um corpo coberto por véus.
O recato feminino é o contrário do que prega uma mitologia brasileira, onde, apesar do catolicismo oficialmente hegemônico, imperam divindades femininas erotizadas, como no caso de alguns orixás pertencentes à nossa matriz religiosa africana. E, mais ainda, como no caso de divindades pertencentes ao panteão gerado pelo cruzamento das mitologias africana e indígena. O corpo, nestas mitologias, comumente é mostrado nu. Juliana Paes, na novela, interpreta a mulher típica indiana, através da personagem Maya. Porém, seu amor aspira a uma quebra nos costumes da tradição. O amor romântico a leva para a forma ocidental de casamento, onde o ato do enamoramento responde ao impulso da paixão.
Sexualmente falando, o casamento é responsável, em qualquer cultura, por ampliar a área de castidade da corporificação dos mitos. Significa que o ato sexual, praticado com devoção, entroniza o parceiro: o noivo torna-se um deus; e a noiva, uma deusa. A proteção ao parceiro exige conter uma possível fuga em direção a outro casamento. Neste contexto, o processo pelo qual o Brasil entronizou a mulher nua (aberta a todos, como se pode ver nos desfiles de Carnaval) torna-se de compreensão mais nítida.
A brasileira típica, por mais que se conteste, é representada pela morena de quadris avantajados, muito semelhante, a propósito, a Juliana Paes. A filha natural do Brasil é essa mulher. O ato romântico anterior ao casamento, no Brasil, encontra-se amplamente sexualizado. Essa sociedade casa-se longinquamente com o mito da abundância. A filósofa Marilena Chauí relata o quanto o mito fundador brasileiro corporifica a idéia da existência possível de uma terra sem males – o paraíso, ou eldorado – há muito tempo prometida. À época do descobrimento do Brasil, Portugal havia descoberto também o “caminho das Índias”, uma rota comercial marítima nova acima das possibilidades tecnológicas de então. Havia a crença de que o Brasil poderia representar a posse, para os portugueses, de uma nova e promissora Índia.
O manto que cobre a mulher indiana não abole o desejo. Pelo contrário. No Brasil, a música cadenciada ordena o casto relacionamento com as mulatas do samba. A mulher é soberana a ponto de acuar o macho. Com corte profundo sobre o arquétipo oriental de contenção do desejo, o Brasil instaura o medo por um fruto não proibido. O alto respeito à mulher, à casa e à terra (à natureza, pode-se dizer, em apenas uma palavra), que ainda não vigora em nossa pátria, poderá nos elevar à condição de uma civilização altamente desenvolvida, a exemplo da própria Índia. Ver a novela, agora, pode estar sendo o alimento necessário à valorização de nossa própria cultura.
O Rio de Janeiro continua a ser o cenário “oficial” das novelas da Globo. O mito da terra da beleza encontra-se ancorado na Baía de Guanabara. O medo instaurado na antiga capital pela guerra do tráfico repercute nessa mudança de cenário da novela? O mito artisticamente se constrói. O caminho das Índias proposto por Glória Perez é inspirador. Talvez nos ajude a finalmente encontrar a rota de um Brasil profundo amplamente representado em tradições onde o colonizado perde a escravatura, passando a conduzir o cortejo, e onde a mulher anda com belos mantos que tudo mostram.
20 Janeiro 2009
Esporão negro, revelai teu povo

Nego escuro-queimado,
Fogo de labareda,
O dono do mato é teu rei:
Quero tua pilastra.
Fostes crucificado,
Negro escuro do mato.
Sonho com isso:
A pele escura.
Cor do mito angélico,
Nova Jerusalém foi a Bahia.
A gostosa culpa dos padres
Endomoniando-se, pelados
E cativos da sensualidade
Índia e negra.
Ah, escuridão marítima.
A cruzada portuguesa rodou o mundo.
Massa inculta e franca,
Toda a tua laica vertigem
É sabedoria celeste,
Teu santo currar-se,
Tua alegria boba.
A moça é receptáculo da cruz.
A malícia urbana me sublima.
Há mortes de galos na cruz.
Esporão negro, revelai teu povo.
Seu manto se faz de latas e
Sem-nomes de pequenos entulhos,
Em escala industrial.
16 Janeiro 2009
Disco oracular

Música ressonhada
Em mistura de blecks,
Paus e verdades estrangeiras.
Estranho caldeirão cultural,
Cordão de possante androginia,
Porta-bandeira do mundo.
A porteira é grande,
Todo mundo passa.
O verdadeiro músico é não-restritivo
Em seus batuques.
Oito massas suaves
De toques angélicos,
Orientais.
Poesia, põe-te no passo
Destas procissões conjuntas.
Põe tua mesa na curiosa
Noite musical que não atordoa
Os vizinhos,
Nem os cansa, mas acorda-nos
Bons filhos e
Condena maus sonhos.
Volição da massa:
Ser inclassificável,
High tech.
Soraia, volume dos seios.
É portentoso o teu menino.
Minha suntuosa reboladora,
Mortalmente africana.
Decana musa do gozo
No areal de Pessoa.
Ensina-me a ser mole água,
Que funde totalidade marítima
De todas as euforias sonoras.
13 Janeiro 2009
Flora de maio

Ai de tudo,
Dona do manto dolente,
Flora de maio.
Melhor sonar do mor dócil marulho.
Concha achou o marujo.
Grotões de um mar de sussurros.
O lado gostoso soltava vozes quentes
De bonificada filha.
O ato molhado de povoar o futuro
Perdoava o roçar-se de pedra.
Soraia, pranto solar.
Estica os cabelos.
Sonhos solares.
A cada gota de teu mênstruo
Implodi do laço, a vincular-nos,
O domínio.
Saio.
Solidão do músico.
A concha rompe em vozes.
Volição do mar:
Segredar novas sinfonias,
Noivas ordenhais.
Moreno,
Roça teu ouvido no pasto portentoso.
Romeiro, massa do mundo,
De tua cópula dourada e sem feridas
Depende a nova forma de tudo.


