30 Novembro 2005





o vaso


Que forma
O vaso

Tenta capturar?

Ele tão bem tenta...

Assim
Como a poesia,

O vaso tenta.

Restam
Aplausos

Ao bravo.
Só ele

Será erguido
Em nossos

Braços.

O vaso
Transforma

O ambiente
Da casa.

Ó vaso
De tão ricas formas,

Visas
À admiração.

E o que trazes de fora!

Querido,
Pura tentativa.

Quereríamos,
De modo usual,

Interiorizar
A paz

Dos campos.
O vaso o fez.

Toda a violência
Carnal.

Essas flores...
Ah, vaso,

Só tu
Mesmo

Para
Ornares

A minha
Casa

Com a paz
Divina.

Mereces,
Por isso,

O lado
Ornamental

Do vaso
Parado,

Estático,
Portador,

Receptáculo.

Lago:
O meu olho

É lago,

Onde
Teu ser,

Vaso,
Bate em

Ondas
De mil reflexos.

Também
Estás em

Mim dentro.
Olhá-lo

Como que
Me dispersa

Qual
O vento.

Nesse
Recinto,

O vaso
Recolhido.

Uma reza
Ao vaso

Rezará:
Ó vaso,

És o deus
Das recolhas.

O mais
Deus

Dos Íntimos.

27 Novembro 2005


Segundo poema para o abacate



I


A alma
Do abacate.

Se o abacate sorri,
Eu sei.

A alma se revela um pouco
Água.

Transparência líquida.

E quando a água fala,
É rija.

Chuva, um transparecer
Pluvial.

Chora, abacate, chora.

Porque o abacate me sorri?
Ele fora, então

Somente
Dentes.

O abacate
Está programado,

Assim como o limão.

O limão
Purifica,

É desinfector.

O abacate ilumina.

Pobres,
Sofridos da solidão,

Nos colocamos ao pé do
Abacate.

Loura água,
Tu és abacateiro.

Abraço-te.

Faz-se a roda
Ao redor do abacateiro.

Terá vindo cair a chuva.
- Gente, recolhamos
as dádivas do céu.
O abacateiro é
divino. Só ele
Deus nos deu.

Recolho-te, lágrima.
O abacateiro

É divino.


Ele
Deus

Nos deu.

Divino abacate.
Extremoso.

Do chão.

Teu formato-lágrima.
Tu, neutro de sal.

Não és o que dói
Mas o que socorre.

Só,
Limpo.

Aquilo
Que

Me
Escorre.


Acredito

Na
Porção

Abacate
Do

Meu
Lado

Restaurador.
Um

Pouco ouro.

Dai-me
O teu sublime

Resultado.
Água
Refletida

Santo
Território

Do nascer
Do ouro.



II


A paz
É flagrante

No
Abacate.


Vai ele,

A
Alisar

Os cabelos.

Pela glória de Maria,
Abacate,

Sei o
Que

Não
Tens:

Sexo.

Sabes,
Abacate,

Que
Não

Tens
Filho,

Só sumo.

Mesmo assim,
Ó vertido

Abacate,

Cais,
E o teu querdar-se

É como
O que mantém

O planeta
Terra

Em suspenso,

Solto
No espaço.

De
Quantas

Coisas
És espelho.

Ah, e
Também

Fonte,
Meu

Tenro
E forte

Abacate.

De
Quantos

Pés
És

Tristeza
Porque

Acaba-te.

Os lírios
Serão sóis.

E quando
Os sóis,

Convertidos
Em ouro,

E os pais
Que choram

Por seus filhos,
Seremos pais.

O abacate
Como uma nave da insolação.

A paz
De espírito

Na porção pouso,
Um pouco

Rósea,
Do abacate.

(Também marrom).

Um pouco rósea,
Cheirando a carne.

Pecado
É ser abacate.

E ser
Só fruto.

Um pouco
Da tua

Porção
Pomo.

Pecado
É saber-se

Nu:

Caroço do universo.

Primeiro poema para o abacate


Haveria qualquer coisa de explodido ou de algo que se incha por dentro.
Pare e olhe. O abacate arma-se (por dentro...)
A noção do arma-se pode ser precisa, meu nobre.
É uma deflagração no tempo: o abacate está maduro.
Ah, minha face, minha dor, minha mãe.
Sorriso.
Tudo em ti lembra e eu a ti lembro o abacate.
A memória.
O que é pássaro, lembra o abacate.
A memória vem.
Tô maduro.
Oco.
Tô no seio
Moreno
Da minha
Mãe.
Por que o oco?
Misterioso som.
Fauna e flora.
Agora vem a mãe comer
O bichinho.
Podemos
Nos imaginar
Dentro da maçã?
A mãe ouve
Histórias de fetos
Que são
Grãozinhos.
A concepção
Mesmo humana
Sabida
A partir
Do mundo vegetal.
Vegetação
No mundo-homo.
O baluarte
Das fôrmas.
O redondo.
A mulher-abacate.
E pequenininhos
Os trompos,
A forma
De flor pra
Seus ovários.
O cálice, onde
Estão
Pequenas
Sementes.
A reprodução
Foi inventada
Num contexto
Aquoso.
Os espermatozóides.
O mondo-sapo
Homo
Homo
Homo
Herói tentando bicá-lo.
O beijo à flor.
Homo.
O abacate.
O amor.

22 Novembro 2005


Eu ficara sozinho, totalmente sozinho em casa. Um homem acuado por ter ouvido um longo choro de dor, como o de um útero se contorcendo. Visto os lençóis da cama e sonho com uma grande vagina clamando por sexo, tocada por dedos. Escrevo na manhã do dia seguinte um poema onde o desejo e a dor quase não se separam. Resolvo chamá-lo Os Dois Lados da Vagina



Fui espantado
No sono

Pela rainha
De pernas

Abertas.

Essa mulher
Sempre

Me passou
A idéia

Do homem.

Como entender
O homem?

Uma vulva
Amada

Me veio
No sono.

Lábios...
Por quê

São lábios
Isso que

Vejo?

Não
consigo

Dissociar
Tua mão

Dos lábios.

Essa
Mão

Acariciava.

Uma mão
Sabe.

Eu conheço
Pelas mãos.

Dedos
São luz.

Ah, mulher,
Você é linda

Nessa
Beirada

De precipício.

Mulher:

As pernas
Do templo

São o que
Erguem.

Há uma
Mística

Na levitação
Da vagina.

Quando
Eu era

Menino,
Ela me

Alcançava
A testa.

Mágica
De meditação.

Hoje
Sai-me

Pela boca.

Encontrei
Então

A vagina
Contida

Em mim,
A regular-me.

Foi minha
Bênção:

Um teor
De mão

Que
Se coloca

Bondosamente
Sobre a cabeça.

Ó mulher,
És carne

Tão viva.

Hoje me
Lembro:

O gosto,

O prenúncio
Do sabor

Que tu terias.
Porque ali

Eu queria
Meter a cara.

Doce menino,
A vagina

É o teu sonho.

Fique
Doce.

Estou
Doce até

Hoje,

Baseado
Na bênção.

E os sabores
Se alteraram.

O mamífero
E seus pêlos.

Pelos
Pêlos, desejos

De quem
Parte atrás

Duma
Vagina outra.

A parte
É uma terra

Onde
O falo

Brota
Adulto.

Ser
Como

O pai
E colher

Ouro.
Você me

Olha,
Vagina.

Quer
Ter comigo.

Nada


Que
Machuque

Mais
O ser humano

Que
O seu

Sexo
No abandono.

A vagina
Sabe seus

Segredos,
E por isso

Sabe-se
Quando

Se acaricia.

A vagina
Só, se consolando,

Me querendo.

Eu olho.
Triste,

Ela me grita.

Sexos
Se ofertam,

Sexos
Querem,

Se põem
À mostra.

Agora
Eu sei

O significado
Daquela

Mulher
Gemendo.

- Ouve
Essas mulheres...

Aproximo-me
Da vagina.

Carrego
Todos

Os meus
Dramas

De falo.

O falo que
Quer ser

Buraco,
Avesso

De si
Mesmo.

Diretivo,
Posicionado.

Como é
Triste a vagina.

Todos
Os tapas

Que ela
Mesma se

Aflige

Por
Não

Ser
Casta

E por
Ter traído

O papai.

A vagina
Um pouco

Úmida,
Depois seca.

Sinto
Que aproxima-se

A hora.

Ela me grita.
Elas,

As vaginas,

Continuam
Sendo

Para
Os homens

A fantasia
De um sexo

Exposto
E um paradoxo.

A vagina
Hoje

Me lembra

O fim
De toda

Sacrificação.
Ao mesmo

Tempo,
Lembro

Do seu
Tom

De chuva
E desaguamento.

Eu
Quero

Dizer
- Cala-te,

Vagina!

Mas não

Consigo.

05 Novembro 2005




sábia

I

Sereia...

A voz
Irrefletida.

Mulher
Alta

Gigantesca.

Castelo
Em que entro.

O genital
Apartado.

Suplicas
Por uma réstia

De discórdia.
Vou entrando

Nesse
Castelo.

Vejo
O sangue

Com que
Tua mãe te fez.

Dinastia
De mães infelizes.

Queres
Saber do choque?

Tenho aqui
Também

Os meus
Reflexos:

Papai faz
Mamãe infeliz

Na cama,
Até que

Venha
Alguém

E apague
Essa imagem.

Resta-me
Você.

Por que
Vou ser par?

Cada homem
Cada mulher

Que tamanho têm?
São-se proporcionais?

Deus
Joga com

Peças.

Sabe,
Mulher.

Deusas
Imperfeitas,

Meus pares.
Músculos,

Pontapés.
Meu masculino

Adorar-se.

Homem, sabe.

Orgulho
Das
Cercas

Que tu levantas
E sobre

Os ombros
A cabeça.

Homem, sabe.

A leve
Delicadeza.

Meu ultra-
Menino

A quem
Dou o pão.

Sobe até
A realeza

Dessa uternidade.

A saga
Dos deuses

Até
Que se odiassem

Pelo
Que um

Não
Tem do outro.

Músculos,
Mulher.

Ombros largos
Pra levantar do chão.

Útero,
Covarde e

Animal abastado.
Abismo

Com a
Voz

De Deus
Dentro.

Mistérios circulares.

Um, a posse do chão,
Territoriais.

O pai e o liberto.

A outra,
O receptáculo do
Medo

Rainha,
Num deserto.





II



Do alto.

Castelo.

Beleza
Que não se atinge.

Perfeita.




A destruição.

Por que
Não te atinjo,

Ó deusa?

Inebriado,
Inebriado

Estou.
A linda

Que
Se põe

Sobre
O mais alto

Monte,
Castelo.

Na uva
O salopar-se

De um
Vinho.

Constrói-se
Nela,

Mediante
Finas

Cadeias
Complexas.

Além da
Uva,

Largo
Muito mais

Vasto
É o sabor

Do vinho.

Amo-te
Uva.

Deixa-me
Desanuviar

Afastar
As brumas.

A vida.
Estas

Nuvens
São a

Vida.

Me tornam
Cego

Ao
Teu alto

Castelo.

Sabor
Da vida,

As
Nuvens

São
O próprio

Castelo.

Tormentos
De deusa,

Teus
Seios

Adornam:

Linda.

Quando
Eu era menino,

Levemente
Salgados

(Tanto
Mistério

No sal
Dos

Seios,
Sal

Que
Turva

A
Visão.

Sabor
Cotidiano

Do vale
Salgado.

Purificação
E paz

Do espírito
Na dureza

Desse
Mar).

Seios
Maternos

Da mãe
Que bate.

- Acalma-te,
Filho.

Mas não
Posso.

Estou aqui,
Mãe

E te quero.

Te bato, te bato.
As mulheres querem.

Quase
Anuviei.

A violência
Do lar:

Mulheres
Enquanto

Quero
Não correspondido.

Quero
O

Filho.
O que mais

Eu poderei
Haver querido

Se não
Tu

Nobre
Filho?

Filho
E mulher

Apanham,
E batem.

Laços.
Ah, laços.

Comer
Juntos.

Ah, laços.

Teus
Fios soltos

No banheiro.

Laços.

Os aniversários.

Ah, laços.

Laços
E mais laços.

Aqui
Compreendemos

A morte.
Há sal

No sangue
Que nos une.

O quanto
Choraremos

Por
Um pai.

Todos vão morrendo
Um pouco juntos.

O filho
Foi embora.

A mãe
Te consola,

Filho,
A mãe te consola.

Por que
Por que os

Os homens vão embora,
Os masculinos?

Considere-se
Que,

De alguma forma,

São inacessíveis
Os castelos.




III


A mulher se pinta.

(Primeira tinta -
Sangue dos animais abatidos)

Para quem tu te pintas?

Que
Estrela

Te
Orienta?

O
Se
Gre
Do

Do universo
Onde se encontra?


No sal
Da espera.

No aquecimento
Da mão que acompanha.

Sinal da escrita.
Sabemos o teu nome,

Falaremos
A tua face

Predita.

Acompanharemos

Teus sortilégios.

Por que,
Afinal,

A mulher
Se pinta -

Pinta
Os olhos:

Sagacidade?

A mulher
É um poema

Escrito.

Faz cumprir uma profecia:

- Calma,
E serão bons!