10 Dezembro 2005


Sobre uma foto



A foto da menina me dá inspiração. Era eu a querer a menina quando recolho essa foto que encontrara no chão. O chão das superfícies caídas, como o velho cartão postal que já se esqueceu.
Fecho os olhos. Faz-se o tempo. Sob seu oriente, o sábio que lê com dedos, é cego, e ama o perigo de não saber o caminho, deixa em versos exposto. Abre com dedos o coração da menina.




I

Menina.
És

Menina.

O homem
Por

Ti chora.

Essa
Moça

Será
Levada

Para
A cama.

Por que
Te

Ofertas
Dessa

Forma?

Amo
Os teus

Pés.

As mulheres
São

Seres
Incompreendidos.

Menina,
Por que,

Explica,
Por que

Te dás?

(Ela
Vem

Me
Provocar

A fúria).

Mesmo
Assim,

As mulheres
Se dão,

E esse
Dar

Fustiga

Porque
Multiplica

Minhas
Possibilidades

De não
Ser

O escolhido.

A noiva.
A noivinha.

Brinca
De noiva,

Menina.

Você
É tão

Somente
Flores

E haverá
De me haver

Querido.

A noivinha
Com seus

Besouros,

Coroas

De
Deus.

Amarradas
Mãos

Pelo
Ventre.

Serás
Incapaz

De cometer
Violência -

Da qual
Sou professor.

A
Noivinha

Me
Beija

Com
Seu

Anel.

Seu
Signo

É a
Lua.

Pés
Descalços.

Quanta
Fundamentação

Nesses
Pés.

Te amo.

Abro
A boca:

A noiva
Virá

Calar-me.

O anjo
Casa-nos.

Ah, e
Como

Ele
É bondoso.

A mágica
Sublime

Do casamento.

O
Universo

Vejo.

Carregam-nos.

Uma
Carruagem

Com
Cavalos

Alados
Leva-nos.

Teu


Vai
Pisar

Ouro.

O ritual
Que

Se
Celebra

Uma
Vez

Na vida.

A noiva
Agora

Ficará
Em

Casa,
Trançada

Como
Um bibelô.

Pose
Imultável.

Não
Te

Moves,
Noiva,

Para
Que

Não
Te rendas.

Longos
Cabelos

Te ajudarão
A

Dormir
E

A secar
As lágrimas,


Que

O
Tempo

Desfez
Tua

Ilusão.

Longos
Cabelos

Servem

Para
Sonhar.

Dasata-os.

O
Fauno

De
Halo

Dourado

Virá
Jorrar-te.

Bem
Dourado

Ele é.
De que

Cepa
Será

Feito?

Sem
Sabê-lo,

Secreta-o
Com

O
Coração.

Teu
Peito

Amargo,
Tua

Decepção
Em

Relação
Ao

Homem.

Agora
Te

Vejo

Fechando
Os

Olhos.
Vais

Chorar

Por
Muito

Tempo.
Noivinha,

Um fresco
Do

Ar
Te consola.

Um
Perfume

Te
Abre

E te
Anuncia.

Ó, doce
Noivinha.

Depois,
Haverá

Tua
Morte

E
Haverá

Tua
Filha.




II


Nos
Pés

Da
Noiva

Está
Toda

Riqueza
Alegórica.

O Dedo-
Homem

É o falo,

Mesmo
Que

Feminino.

Ter
Os

Dedos
À boca

Simboliza

O coito.

Lambê-los,
A

Lascívia.

Sensatez
De

Moça

Que
Ama

Os
Filhos,

Eu
Vejo

Nas
Tuas

Atitudes,

E
No pé

Feliz,
Um pouco

Pálido,
Macio,

A tua
Suavidade.

Logos
E sábio:

A mulher
Não

Fala
Muito.

Prefere
A

Certeza
Da

Sua
Casa,

Onde
Se

Sonha.

Passadas
Noturnas

Acalantam
Um

Tal sonho.

Por
Isso,

Não
Se

Ouve
Quando

A
Mulher

Caminha.
(Para

Não

Atrapalhar

O
Sono

Do
Indefeso).

Ó,
Mulher.

Te
Amo,

Diz
O pai,

Com
O pé

Da
Sua

Mulher

À boca.


Com
Pé.

Caminhar
Juntos:

O
Que

É
Sofrido

Para
Diferentes

Cabeças.

(O homem
Ainda

Sonha
Apenas

Com
A mulher

Nua
Ofertando-lhe

A dor
Da

Sua
Boceta).

Pés
São

Sal.

Lembram-me
O nome

Das
Coisas.

Pão é pão.
Pau é pau.
Sangue é sangue.

Tristes
Bocetas

Cotidianas
Com

Seus
Filhos

Mamando.

Pés
São

Sangue.

Pisas
O espinho

Da
Rosa

E
Conheces

O
Espírito

Da
Dor.

Aproximo
Da

Boca
A rosa

Que
Recolhi

Do
Chão.

Sei
Seu nome

E
Sou

Capaz

De
Recitá-lo

Em
Versos

De amor.

Uma
Vez

Assim
Procedido,

Uma
Venda

Dos
Olhos

Desato.

Espanto
Dos

Sonhos
Meus

Cabelos,

O que
Me impede

A
Volta

Nos
Fios

Agarrado.


Sonho,
Sonho,

Sonho!

Afugentei

O
Medo.

Sou
Um

Herói
Guerreiro.


Te

Posso
Olhar

Nos
Olhos

E
De

Ti
Imitar

O seio.
Quanta

Bravura
Nos

Meus
Olhos.

Tenho
Os pés

Fincados
À terra.

Nobre
Guerreiro,

Já sou
Livre.

Apesar
Do paradoxo.

08 Dezembro 2005



O Sangue


A quantos, e sobre quantos, eu poderia dizer do sangue. O sangue enquanto símbolo, ou sinal. Conversar sobre o vermelho.

A começar pelo tinto escrito. O risco que se faz na escritura. O bico de pena. Porque, quando risco, firo o ser. A palavra-pensamento afia. Os próprios traços finos. Então, o ser corta e é cortado. Alvo e dardo.

Mas há um bocado também de tinta. O sangue espalhado. Engraçado, que ao ser riscado, qualquer chão sangra, ele é que verte. Largar a tinta no papel é o oposto. O que há, nesse caso, é uma violência da tinta, pelo seu estado de impregnação, a maneira como atinge o que lhe recebe.

Talvez por isso elas, as tintas, me lembrem o sangue. Lembro agora, e ainda, da mácula do papel branco.

Na verdade, tenho meu próprio ser, carne e som, impregnado por esta matéria-prima: sangue...

O verter do sangue é dor. O sangue escapado, me significando enfraquecimento e dor, quem sabe algum desmaio.

O por ferir. O que haverá por ferir. Na plena manhã, o sangue me abandonou e o dia se tornou mais pálido, fraco.

Então, quando bato, em represália, busco o mesmo som, com base na lembrança que tenho. O mesmo som, eu quero que tu o sintas. Sangrar é bom, eu digo ao outro: é assim que eu te mato.

Escravar me lembra o som tímido que tenho de matar o outro, minimíssima violência ao sabor de um signo. Ah, sons. Ah, signo.

Ocorre-me ainda outro vermelho, e o vermelho da menstruação.
Será outro signo, outro sinal. Isso nos habita tanto, em nossa mente espantada.

A menstruação como som.
Está compreendido o sinal: assinala-se, e assimilo, que esta pequena flor já pode reproduzir. Veiculação hormonal, os critérios do sexo: somos avisados.
Ó fecundidade da espécie!
As mulheres mostram o seu sangue. É um alvoroçar.

Homens – diz a mulher - vou lhes contar um segredo: vossa sede ao pote nos marca.
Império da fúria masculina, vocês fazem a guerra é em nossa causa, dada a nossa contenção de pernas.

Calma, tudo o que vos peço é calma.

Homem...

É aqui que a mulher se recolhe. Uma voz mista dentro dela, um agitar de dentro dela, um reflexo de todas as participações, dos choques, do colado, do sangue pela quebradeira e pelo confluir de ossos para depois ensanguentar as mãos da parteira...

A lágrima, vê bem, a lágrima que rola, é sangue, como uma emanação cardíaca e no seu plasmódico e na cabeça.

A mulher alimenta tudo isso dentro de si.
Se fará um bebê: novos seres humanos, na sua consistência.

Somos
Humanos.

Não somos
Ovos
Expostos.

Eis a
Chave.

Mais
Seio,
Mais
Materno
Somos.

A mãe
Do sono

Como numa
Cave.

Sonho,
Mãe.

Durmo,
E Ilumenesço.

Luz de Sábio.

03 Dezembro 2005


O pai das coisas


As imagens.
Como pode o que não é,
Sê-lo?

Fixo os meus passos.

E estou sempre querendo
Ver alguma coisa.

O que
És? -
Pergunto à coisa.

Tenho pés, e porque
Tenho pés, sei.

Eu sou.
E se sou,
É porque sonhei.

Estou sempre sonhando
Uma
Coisa.

E sonhar
É querê-la.

Eu vi
Com o
Meu
Dedo.

E agora
Sei.

Ó pai,
Estou nu.

Ouço
E apanho
As
Chaves
Do
Passado.

Sabe
Pai,
Estive
Apanhando

Os
Objetos
Jogados
No chão.

Um
Mistério
Em mim

Diz
Que há
Uma
Mágica

De
Objetos.

Mágica há em lê-los,
Já que, de algum modo,

Comportam línguas.
- Queremos ser!

A luz
Brilha

Sempre
que a coisa mostra-se.

Eu tenho
Direção,

Diz-me ela.

Estava perdida,
Numa tarde fria.

Tudo que
No frio habita,

E é achado,
Brilha,

Por
Se ter encontrado.

Essa coisa
Agora fala.

O olhar revela
O objeto

Por lhe dar boca.

Calo-me
Feito uma pia.

Diz essa boca
Ser teu céu aberto.

Essa boca se curva.
Passa-me o seu segredo.

A boca,
Que é concha,

Ansiava
Por um beijo.

Ah,
Fora encontrada.

- Os homens haviam me perdido -
ela quase grita.

E seu grito
É surdo.

Por isso espanta.

Fala a coisa,
Pedindo.

- O verbo me liberta.

Poderosa coisa,
Quando tu

Em mim
Entra,

Sou teu refém.
Augusta.

Recebo-te
Em meu castelo.

Sou o pai
Das coisas.

Porque
Sou teu objeto.

Deixar-se
Inteiro

É o que
Me faz

Pai.
Te liberto:

Para
Que te

Tornes.
E venças o tempo.

parir é uma arte - 1


Não
Me desprendo,

Com as mãos,
Da memória.

Abre-se
Em mim

O Olho.
Eu levava

Leite
Pros gatos.

Ele era
Um animal

Cego.
Cachorros,

Pássaros.

A atitude
Humana

De cuidar
Dos animais

Me toma.
Os pais

Cuidam
Dos filhos.

O paraíso
Me toma.

Estou
Aqui

Tomado.

Escalavranco
As razões

Dos
Pais.

- Tão lindos,
Os bichinhos.

Um pai
Gostaria

De ser salvo.
Não

Teve
Suficiente

Leite
No ninho.

Ó pai,
Teu lamento.

Ouço
Com a memória

Das mãos.
Socorro,

Meus filhos.

- Filho, te amo.

Abro-lhe
O corpo

Celeste
Que há em mim.

Ali girava
Ouro.

Ama-te.
Quanto

De ouro
Foi por ti

Derramado.
Quando

Bebo
O leite

Estou
Comprimido

No vácuo.
Corpos

Celestes...

O sangue
Nos braços.

Eu havia
Ido

Ajudar
A vaca

A parir.

Ô bovino
Parlante.

Vamos
Ouvir

A vaca.
Ela é tão

Grande.
Ninguém

Como esse

Gado.

De todas
As vacas,

Haverá
Uma, dona

Do sábio
Leite?

A vaca
Come

A placenta
Depois

Que o filho
Aterra.

Vaca:
Sinônimo

Da generosidade.

Ave,
Benta.

Homonídea
Mãe

Da luz.

Por que
A vaca

Dá à luz?

Meus olhos
Trincham-se.

Eu
Quero

O bom
Queixo

Da
Vaca.

Vê,
Como

Ela
Lambe

A cria.

A vaca
E seus

Quartos.

Imagine
O tamanho

De um
Bezerro.

Cairá
Ele

De


Aqui
No planeta.

Ô vaca,
Que mágica

Tens?

Os ossos
São

Fortes.
Sente

A bravura
Honrosa

Desse bicho.

Sim,
Será


Preciso
(Amém)

Adorar
A vaca.

Por que
Ela

É tão
Forte

E não eu?

Cada
Homem

Aprende
A adorar

A vaca.

Vai tê-la
Dentro

De casa,
Mesmo

Comendo-a,
Não há discrepância.

Recolho-me
Em paz.

A lógica
Das

Estrelas

Me pôs
Marcas

Nas mãos.

As manhãs
São

Frias.

Um homem
Recolhe-se.

O momento
Da concepção

É neutro.

Ninguém
Sabe.

HORA.

Faz-se
A Hora.

O bebê
Desperta.

É quando
Todos

Concordam

Que há
De ser bom.

O sábio
Sabe

Que
O sangue

Alimenta.

Eu nasci
Com o sangue

Bom
Da vaca

Tornado
Luz

Em nosso
Materno

Ventre.
Eu aprendi

Com o som
Da vaca

A ser gente.

Esse
Som

Sai do
Útero.

Esteve-me
Colado

Aos pés.
Sou

Animal
Pleno

Porque
Me alcançou

A Vaca
O ouro

Sagrado
Do seu

Sangue
Quente

E do seu leite.

A vaca
Ensina-nos

A ser mãe.

Retiramos
Isso dos olhos

- Esquecemos -

Porque
Essa

É a parte

Mais importante
Do saber.

(O esquecimento).

Mas mantemos
A vaca

Em nossa casa,
Em nossos pastos.

Porque
Amamos

A vaca,
Trazemos

Esse animal

Em nós.

Homens do saber:

A
Fina

Luz

Que
Nos

Faz
Abrir

Os braços
E acolher

O outro
Não

Provém
Da vaca.

Nossas
Mãos

Também
São auspiciosas:

Não provêm

Da vaca.

Nem os pés.
Mas

Há um ouro
Onde

As orelhas
Sabem

Dos sons

E onde
Se ouviu

A maternidade.

Ela,
A muda

Lição
Da vaca,

Foi por ti
Ouvida:

- Calma,
E serão bons!

parir é uma arte - 2


A mater:
Sujeira

Do mundo.
Quanto céu

E sangue
Depois

Do parto.

Ó mater,
Se eu sou

Sangue,
Por que

Me adoras?

Onde há,

Luz
De sábios?

A verdade
Na nudez.

Viemos
Todos

Abençoados
Ali

De dentro.

O feto
No útero

Não
Caminha.

O homem
É um

Ser
Resguardado.

Não tem
Couro,

Como
A vaca.

O cérebro
Do útero

Germina.

Eu
Vi plantação

Dentro
Do cérebro.

Calibrai
Teu olho.

Eu vi
Tempestades

Dentro.
Olho:

Calibrai
Teu berro.

Os surdos
Morrem

Inocentes.

Cobras,
Asperezas.

O que
Tantas

Vezes
Se pintou

Dando-lhe
O nome

De inferno.

Louro
Anjo

Dourado.
Também

Branco.
Azuis,

Dourado
E paciente.

Somos
Nós este

Ouro,
Olhos

Serenos,

Longas
Asas

De anjo.

Representações
Animais:

O espírito
Do pássaro

Voa
Livre.

É na
Consciência,

Nós
Temos

Asas
É na língua.

Falar
Por

Figuras.

Boceta
É a

Pequena
Caixa

Que
Te compõe.

Eu
Escalo

Os
Montes,

Ou seja,
Os seios,

Porque
A mulher

É uma conquista.

As algas
Que

Recolho
Do mar,

Do fundo
Da dor,

Serão
Cabelos

De quem
Se sabe

Bonita

Frente
Ao espelho.

Serão
Belos,

Filhos,
Serão

Belos.

Uma
Tatuagem

Fica
Para

Além
Da

Imagem.
Ela

Gravou-se

No
Cérebro,

Vestida
Com

A roupa
Da dor.

Imagens
São

Tirânicas
Quando

Gravadas

No fundo
Do olho

Pela
Masculinidade

Ou feminilidade
Da

Dor.
Cada

Uma
Te crava

Um prego
Mais

Para oriente
Ou ocidente,

Dependendo
Do teu sexo.

Então,
Gravas

A imagem
Da dor,

Da qual
Só teu

Sexo
Poderá

Te livrar.

Teu
Renascimento

Ou
Tua morte.

Levaram
O sábio

Menino
A ouvir

Conselhos
Dos

Lábios
Bondosos.

Ouviu
A mãe.

Ouviu
A Cruz.

Arrancaram-lhe
Os dedos.

Outra imagem.

Os homens
São

Sábios,
Sabem

O que adoram.

Feri-me
No

Joelho,

Nas sobrancelhas:

As
Zonas

Sensíveis.

A grande
Humilhação

Vaginal
Da mulher

Domesticada.

Imagens
Que não

Saem
Da cabeça.

Lava
As

Mãos,
Parteira.

A
Arte de

Parir
Te ensanguenta.

Protege
Os olhos.

Luzes,
Noites

Acesas
A cavoucar

Nas bibliotecas.

Que conhecimento
Mais

Profundo.
Me invadem

Figuras,
Me iluminam.

E eu sou
Um iluminado.

Olho
Com

Todos
Os lados.

Eu
Folheio

As páginas
Com amor.

Calado,
O homem

Observa
O corpo

Da
Amante,

Seu
Demonstrar,

Adociçado,

Em curvas
Silenciosas.

Sobre
O corpo,

Não
Terá

Coragem
De deitar

As mãos.

A mulher
Sobre

Ti se
Deita,

Subvertendo
A ordem.

Vai estilhaçar

O animal
Doméstico.

Haverá
Novos

Quadros
Nas paredes,

Novas
Pinturas

De
Teto.

Novos
Marrons,

Carmesins,

Espelhos,
Ornamentos.

Olhai,
Ficai

Atento.


Um piscar

De luzes.
As

Luzes
Intermitentes

Da cidade.

O que
Pisca:

A verdade
Negra.

Deixar-se
Na chuva.

Ossos
Que se partem.

Tenho
A mulher

Suada,
Benigna.

Ela vai parir.

Tenho
O leve

Tremor
De Deus

Ao misturar

Minhas
Mãos

Com seu
Sangue.

Fecho
Os olhos.

Levanto-me.
Pego

Um livro.
É noite.

Passos,
Ouço

Passos.
Acendo

Uma vela.
Ouço

A vela.
Ela me ilumina

A face.
Quadro:

Quantos
Homens

Já desceram
À escuridão

De si mesmos.

Tenho
As mãos

Trêmulas
Pra tirar

O filho.

Ouço
Do parto

As lamentações,
Como

As que
Com o joelho

O filho
Rasga

No sofrer
Da mãe.

O filho
Quer

Me ver.
Por isso

Se esbate.

Ouço
Esses

Ossos
Que se

Partem.
Dilato

O meu
Ser:

Agora
Que

Sou da
Morte

(O escuro
Traga-me)

Sei
Também

Sofrer.

A vida
Bate

E insulta.

Com a
Morte,

Volta
A tornar-se

Boa.

A boa morte
A bela

Vida
Espanta.

Ouço
Passos.

Vou ver:
Meus

Olhos
Admiram-se

Com a luz

Do
Que está

Nascendo.

Uma Nova
Vida

É sempre
Uma

Promessa

De
Paz.

parir é uma arte - 3



Quando
Me

Boto
Duas

Ou três
Figuras

No espelho,
Eu me faço.

Coloco,
Reforço

Traços.
Pinto

O cabelo.

Deixo
O verbo

Solto
Como

Eu gosto.

Línguo.
E lambo-te

O olho
Quando

Me faço

Oito

Ou
Outro.

Sei
Do que

Sou
Capaz.

É assim

Que o
Belo

Se sabe
Próximo.

É mais
Provável

O impossível.

Hoje
Quero,

E sei
Que posso,

Mudar
De rosto.

Ser o
Filho

Abençoado
Das

Minhas
Loucuras

Serenas.