19 Junho 2006



O rosa do abacate (um possível manifesto cultural)


Qual será a base de todos os sincretismos? Uma concessão, porta que se abre. É preciso compreender esta verdadeira alavanca. É por ela que o Brasil marcha. Movimentos culturais são importantes. Uma definição de brasilidade, uma redefinição, na verdade, urge. O Brasil é uma gigante nação? O candomblé nos une. Os atabaques chegam e reúnem-se no Brasil muitos tambores, junto a uma lira lusitana combatente da maura lança. Anjos portugueses ainda nos acolhem. O lirismo português é uma árvore. A doce pátria nos acolhe.

Tudo se canta com a língua. No mundo, são 200 milhões de pessoas que falam o português. 180 milhões estão no Brasil. É aqui que esta lira lusitana ainda soa. Mas sincretizamos tudo. A bunda da mulata. Aqui as índias estavam com os peitos de fora. Encarniçadamente, uma civilização se constrói. O mito da beleza roubada em Helena de Tróia nos reaparece, reordenando as estruturas. A civilização peca. Se não pecasse, não saberia que é civilização. Homens buscam a glória. Hoje, para impressionar as mulheres, nossos homens - especialmente os negros e favelados - correm atrás de obscuras compensações materiais. Talvez esteja se atravessando, nesse momento, no imaginário da nação, a idéia de um absurdo desespero.

Conhecemos nossos poetas. O poeta é fálico, é pai, é profeta. Sua feição vincula-se ao mito ancestral e não depende de especificações concretas, do aqui e agora. Podemos ter ótimos poetas em corpo de mulher, e teremos cada vez mais disso. É na poesia que se constroem mitos. A lira brasileira, não mais camoniana, incorporou ritmos e um misticismo sagrado ao batuque do candomblé. São os nossos sincretismos. A santa, virgem puríssima, é branca, expressão lusitana abrindo-se para os anseios primitivos de miscigenação. O cristo é fálico e penetrante. Fernando Pessoa, outra estrela candente da lira lusitana, imaginou um neopaganismo redivivo, reinventando o Olimpo grego, onde todos os deuses se encontrariam. É evidente que as múltiplas expressões religiosas ao redor do planeta se disseminaram aos quatro ventos. Hoje, o Brasil verte poesia com força suficiente para reencantar o mundo. A voz dos negros ecoa, numa legítima subversão da ordem. Séculos de escravidão convertidos em canto libertador, já que a música, talvez mais que a própria religião, tem o poder de unir os povos.

Os poetas concretos brasileiros tentaram dizer algo, aproximando suas escrituras duma sonoridade visual. O épico ficou relegado a segundo plano. A narrativa do mito, entretanto, não prescinde de um lirismo inseminador. A rosa do abacate surge como fantasia mística. Homens precisam sonhar. O sonho reescreve as linhas da história. O rosa é útero. Após milhares de anos de dominação masculina, o feminino aflora como força de resistência e de combate à guerra. Aflora – e sempre será pela via da poesia – uma nova consciência de deus menino. A figura crística irá situar-se levemente encolhida, um pouco de joelhos. As mulatas do samba brasileiro fazem uma verdadeira exaltação da virgindade e da pureza ao desfilarem sua belezas. Revigoram a fantasia de que somos feitos enquanto pátria: a possibilidade de transcender o castigo imposto pela consciência da própria nudez. Sob o jugo não de uma simplesmente pátria, mas de uma nova hierarquia, reordena-se a indecência dos trópicos. Somos a nova promessa de um paraíso possível. A mulher é nossa.

A proliferação de abacates indica que o másculo se feminiliza sem perder a força que lhe é própria. A essência do feminino de diferentes modos se exterioriza. O feminino habita mãos e línguas. Muda de nome, muda de cor. A força interior do poeta o procura. A ponta da caneta do poeta o desenha. Um lugar para a arte é pacificar tormentos masculinos. Sua força reprodutora encastela o homem.

Jesus de Nazaré e os tambores do candomblé. Evoé, colofé. Ou o mundo se brasilifica, ou vira nazista. As sábias palavras do grande artista antecipam uma nova era. Essa riqueza fonográfica do Brasil tudo indica: não deixa os portuguais morrerem à míngua. O verde-rosa nos dignifica. A grande obra aqui habita. A vida se enternece.

13 Junho 2006


Pedido de adoção


Quem não conhece o Mário Pirata? Guri bom, gaúcho, é possível vê-lo na estrada. A estrada é metáfora da vida. Eu tinha já uns anos quando vi o Pirata. Era crescido. Mas me senti filho. Será ele meu amigo? Os pais são amigos. Coração bom. Aquele dia minha orfandade atravessou-me. Tenho cinco mãos e cinco pés. E um coração bom. E agora eu aqui, fazendo um pedido de adoção em público. Foi o ópio, esqueci de pôr as calças, tenho as vergonhas de fora. Lamento muito. Pensando bem, contudo, resta me consolar que todo filho nasce nu...




Ô, Mário
Querido.

Avalia
Minha Cruz.

Somos
Parecidos.

Órfãos
Tateiam:

- Quero
Ser

Teu
Filho.


Pensaste

Em
Deixar

Descendência?

Coração
De criança.

Caroção.
Carroça

De fogo.
Geminiano

De
Duplo

Olfato,
Quero ser

Oito,
Mas não

Consigo.
Avalia

Aí,
Com quem

É teu
Amigo,

Se
Não

Precisas
De um

Assistente
Para

Teu
Circo.

Ave,
Mário.

Tuas
Palhaçadas

Serão
Bentas.

Deixa
Eu

Ser
Teu discípulo.

Nossas
Palavras

Se
Encontrarão.

Pelo
Amor

De
Meus filhos...

09 Junho 2006


Verde-rosa


Avalio
Uma bunda.

Calada.
Um dia

Também
Fui animal.

Da violência
Da bunda

Ao sosego
Que proporciona.

Avistei
Do alto

Esta
Negra.

Parece
Impressionante

Que
A negra

Não
Dorme.

Avalio
A negra

No rodado
De Maria.

O macho
Servil

E cidadão
Em ti

Abraça-te.
Seremos

Irmãos,
Olhos

Nos
Olhos.

Estou
No

Comando
Há muito

Tempo.

Sem ti,
Negra,

Acabo-me.

Olha
Meu corpo.

Nada,
Nada,

Precisamente
Nada

Te abate.
Apenas

Minhas
Alegorias

Encravadas.
Meus seios

De trás
Do além

Do horizonte.

Seios
De trás

É bunda.
Encerro

Neles
Meus segredos.

Avoei.
Um passarinho

Me picou
E pude ver

A violência
Dos tempos.

A mulher
Teve

Seu
Corpo

Desgraçado.
Sangraram-te

O abacate.
O útero

Era
Flor.

A
Rosa

Ali
Estava.

Vieram
Arrancar-te.

A mãe
A moça

Quer
Tornar-se.

Mas
Encontra

O
Caminho

Da
Morte.

A voz
Cala-se.

Vai
Rogar-te,

O homem,
Como

Um
Filho,

Uma
Partícula

De sexo.
A mãe

Bate
No filho,

Que
Está

No
Caminho

Do
Pai

(Rústico,
Pouco

Polido)
Ou no

Carinho
Da mãe,

Qual pássaro.
Meu

Delicado
Otimista.

Eu te
Amo os

Lábios.
Eu não

Sou
Bicho,

Nem
Feio,

Nem
Falso

Másculo.
Atiraram-me

Feito
Uma pedra

Para
Abrir

Caminho.

Hoje,
Tenho

O rosa
Do abacate.

Cascata
Fulgurante.

Minha
Ambição

Está
Contida.

Encontrem
A verdade

Nos
Olhos

De
Chico Buarque.

06 Junho 2006

Homenagem a Chico Buarque das Sereias de Holanda



Com três pedras na mão, morto de inveja, me atrevi a perguntar a um oráculo que tenho porque Chico Buarque de Holanda é imortal. Minha pressuposição acerca dessa imortalidade refletia a idéia de que Chico encontra-se largamente embutido no imaginário coletivo, especialmente o das mulheres. Chico é um pai? Minha hipótese é de que Chico recorta e traz, com mãos de poeta, a violência dos tempos, que se abate com maior contundência – ninguém há de duvidar disso – sobre as mulheres. Ouvi Renata Maria, do último disco, e estarreci-me. Onde está o poeta Chico? Ele ainda vê sereias no Rio de Janeiro – proposta de paz. Creio que aquele oráculo me apontou algo que não sabemos. Que uma breve brisa sopra de um antigo cais (referência: Ode Marítima, Fernando Pessoa). Ali, os homens estão, e é contra o vento. Ontem, morri ao saber desse segredo.



Quando nasci,
Um anjo torto
Desses, etcétera.

Recebi teu beijo.
Depois, vieram procurar-me:

- Marcus, queres ser o rei dos másculos?

Tudo é divino e oculto.
Vieram ter segredos.
Ócio interpretativo.
Botei óculos.
O segredo da arte está nos beijos que recebes.
Os tormentos.
Há belos tormentos pictografados.
A arte, elementos do cérebro.
Eu nasci amaldiçoado, com o cu nas calças.
Danação.
Fico cá, esperando as mulheres, anjos em pele de leão.
Vaginas lavam o teu anseio.
Ficar esperando.
Quando eu nasci, um anjo desses torto,
E eu disse:

- É foda, Carlos.

Ângelos galhados,
Com açoites
E os pintos, pictógrafos.
A mulher me bate, com o seu anseio,
Ali onde esconde-se um pai.
Eu gosto de sexo asseado.
Asseio: a perfeita acareação.
Ouço nossos sambas, reis, novelas.
O Brasil é uma estrela lusitana, a mais bela, portentosa.
De cinco mulheres que eu conheço,
15 revelam seus segredos,
Destrambelham seus canonosos pais,
Colocam-se diante da pia,
Põe-se a lavar ovos,
Quando Chico canta,
Um pouco sujo,
Mesmo perneta.
Supremus.
Supremus.
Chico Buarque de Holanda.
Algumas coisas se fizeram aqui neste quintal,
Ao som de seu magnífico atabaque.
A mulher é sangue.
Tenho vergonha das minhas pernas.
Estrangeiro, sou um estrangeiro num país de pernas pretas
E escolas de samba.
A mulher diz:

- Amo Chico Buarque.

Ela não sabe que ao amar Chico,
Ama uma indecência.
A escravatura brasileira escrita
Sobre a base de um rito de escrever as negras.
Nossa cultura.
Grandes florestas da Ameríndia.
A coroação portuguesa.
A América escrita em espanhol.
Um sotaque de autoridade.
A intensa vaidade.
O que é
Chico Buarque? Uma negra comida por trás:

- A indecência nacional transmutada em beleza.

A glória, as glórias nunca serão estanques.
O ponto crítico que é o Rio de Janeiro,
Esta estranha alegoria.
Buarque.
Pertenço aos de Holanda.
“Tanto horror e iniqüidade” e putaria.
Fria, a filha do senhor dono de negros
É fria.

- Hoje, a pátria tem bunda.

Morenas pias,
Saborosas,
Como frutas melequentas.
Estrela fria, te orienta.
Hoje, o sabor de alforria organiza o movimento.

- Brasil, eu amo tuas filhas!

Batismos de fogo e tristezas.
Meu padroeiro de braços abertos
Sobre o Rio de Janeiro.
Salvações crísticas.
Ninguém tem certeza com Maria.
O gado está bento.
Ave, a filha que o sol queimou,
Que me dá seus peitos.
Subcristianismo tropical.

- Queremos,
Porque queremos,
O charme,
O sossego
Desse Deus grego
De olhos vítreos.
Deus, salve as Marias
Todas filhas de
Francisco.
Água nos olhos,
Sal na boca.
A escrita sônica.
As sereias.
A verde saudade
Por águas tão fundas.

02 Junho 2006

Duas Tragédias da Masculinidade –
Segunda: Fritar ovos.




Esqueço
De proteger

O saco.
Esqueço

De proteger
Os olhos.

Acordo
Com os

Travesseiros
Encharcados

De sangue.
Bancos

De sangue.
A pia

Pinga
Na cozinha.

Pinga
O nosso

Amor.
Você me

Morde.
Você

Me esmaga
Com estas

Suas
Patas

Ao
Vento

- Um

Vento
Silencioso,

Que
Não se ouve.

Bater
Calado.

A dor
Que

Ouço
Agora

Remonta
Ao meu

Prazer
Ancestral.

A filha
Havia

Trazido
As bolas

Do
Pai.

O pai
Insere-se

Na
Filha

Por
Seu desejo

Mais
Profundo.

Corta
Todos

Os outros
Paus,

De todos
Os outros

Homens.
Seus

Olhos
Brilham

E se
Esquecem

Do
Tempo.

É esse
Um prazer

De revigorar
O mundo,

De fazer
Divisas,

De compor
Geometricamente

O universo.

Depois,
Apaga-se

O pai

Como
Uma estrela

No velho
Firmamento.

Mas
Há seu

Cajado,
Que bate

Na
Cabeça

Da filha.
É um escravocrata,

O pai.
Come,

Serve-se,
Bebe.

Mas vive
Orientando-se

Por
Um castelo


Que
Apregoa

A paz.
Todos

Prendem-se
Ao pau

Do pai.
O pau

Do
Pai

É imantado.

Manhã
Cedo,

Eu havia
Ido

Recolher
As vacas

Pro
Curral.

Havia
Ido

Comer
As primas.

O gozo
É um campo

Aberto.
Qualquer

Um quer
Ser pau

E movimento.
Ali,

Eu
Descobri

O sexo,
E recobri-me

Ao mesmo
Tempo

Da morte
Impetrada

Por
Uma mão

Santa.

Quantas
Casas


Nessa

Menina?

Vi você
Escondendo-se

E olhando-me
Por

Dentro
Da própria

Vagina.
A vagina

Me bate.
Nova,

Novinha,

É uma
Criança

Chorando:

- Pai,
Eu sou

Só minha.

O pai
Não lhe bate,

Nem leva
Outra mulher

Ao
Leito.

A menina
Hoje olha,

Achando
Que sou

Seu pai
Perfeito.

O correto
Que há em mim

Funde-se
Com aquele

Pai.
O pai

Perfeito
Recebe

Os
Louros

Da
Família.

(E se eu
Fosse

Alheio
Às cinjiduras

Do
Universo,

Ao nosso
Osso

Que
Clama

Por
Hospital

E
Peito,

Eu ainda
Diria,

Como
Quem arrota:

- E o
Pai

Também
Recebe

Os louros
Da moral...)

Cinjiduras
Do universo:

Ponho

Meus
Pés

Na água.
O pé

É doce.
Coroaram-me

Com
Uma coroa

De
Espinhos,

Como
Se eu

Estivesse
Correndo

Atrás
Da morte,

E clamasse
Não

Por
Um beijo,

Mas por
Um abismo.

Ouço
Cada

Vez mais
As mulheres

No seu
Mais

Profundo
E sincero

Grito.
E não

Sei
Se morro

Ou bato,

Para
Não morrer.

Se me
Recolho

Às calças,
Ou as

Espicaço.
Sei

Que
Se alguém

Ouve
Meu grito

Tão
Singelo

Solto
No vácuo,

Haverá
De me

Compreender.

Sou
Menino.

E meninos
Do meu

Jeito
Morrem

Gozando
Ao vento,

Sob
A luz de sábios

E santos
Sinais:

- Olhem para o abacate!