
O rosa do abacate (um possível manifesto cultural)
Qual será a base de todos os sincretismos? Uma concessão, porta que se abre. É preciso compreender esta verdadeira alavanca. É por ela que o Brasil marcha. Movimentos culturais são importantes. Uma definição de brasilidade, uma redefinição, na verdade, urge. O Brasil é uma gigante nação? O candomblé nos une. Os atabaques chegam e reúnem-se no Brasil muitos tambores, junto a uma lira lusitana combatente da maura lança. Anjos portugueses ainda nos acolhem. O lirismo português é uma árvore. A doce pátria nos acolhe.
Tudo se canta com a língua. No mundo, são 200 milhões de pessoas que falam o português. 180 milhões estão no Brasil. É aqui que esta lira lusitana ainda soa. Mas sincretizamos tudo. A bunda da mulata. Aqui as índias estavam com os peitos de fora. Encarniçadamente, uma civilização se constrói. O mito da beleza roubada em Helena de Tróia nos reaparece, reordenando as estruturas. A civilização peca. Se não pecasse, não saberia que é civilização. Homens buscam a glória. Hoje, para impressionar as mulheres, nossos homens - especialmente os negros e favelados - correm atrás de obscuras compensações materiais. Talvez esteja se atravessando, nesse momento, no imaginário da nação, a idéia de um absurdo desespero.
Conhecemos nossos poetas. O poeta é fálico, é pai, é profeta. Sua feição vincula-se ao mito ancestral e não depende de especificações concretas, do aqui e agora. Podemos ter ótimos poetas em corpo de mulher, e teremos cada vez mais disso. É na poesia que se constroem mitos. A lira brasileira, não mais camoniana, incorporou ritmos e um misticismo sagrado ao batuque do candomblé. São os nossos sincretismos. A santa, virgem puríssima, é branca, expressão lusitana abrindo-se para os anseios primitivos de miscigenação. O cristo é fálico e penetrante. Fernando Pessoa, outra estrela candente da lira lusitana, imaginou um neopaganismo redivivo, reinventando o Olimpo grego, onde todos os deuses se encontrariam. É evidente que as múltiplas expressões religiosas ao redor do planeta se disseminaram aos quatro ventos. Hoje, o Brasil verte poesia com força suficiente para reencantar o mundo. A voz dos negros ecoa, numa legítima subversão da ordem. Séculos de escravidão convertidos em canto libertador, já que a música, talvez mais que a própria religião, tem o poder de unir os povos.
Os poetas concretos brasileiros tentaram dizer algo, aproximando suas escrituras duma sonoridade visual. O épico ficou relegado a segundo plano. A narrativa do mito, entretanto, não prescinde de um lirismo inseminador. A rosa do abacate surge como fantasia mística. Homens precisam sonhar. O sonho reescreve as linhas da história. O rosa é útero. Após milhares de anos de dominação masculina, o feminino aflora como força de resistência e de combate à guerra. Aflora – e sempre será pela via da poesia – uma nova consciência de deus menino. A figura crística irá situar-se levemente encolhida, um pouco de joelhos. As mulatas do samba brasileiro fazem uma verdadeira exaltação da virgindade e da pureza ao desfilarem sua belezas. Revigoram a fantasia de que somos feitos enquanto pátria: a possibilidade de transcender o castigo imposto pela consciência da própria nudez. Sob o jugo não de uma simplesmente pátria, mas de uma nova hierarquia, reordena-se a indecência dos trópicos. Somos a nova promessa de um paraíso possível. A mulher é nossa.
A proliferação de abacates indica que o másculo se feminiliza sem perder a força que lhe é própria. A essência do feminino de diferentes modos se exterioriza. O feminino habita mãos e línguas. Muda de nome, muda de cor. A força interior do poeta o procura. A ponta da caneta do poeta o desenha. Um lugar para a arte é pacificar tormentos masculinos. Sua força reprodutora encastela o homem.
Jesus de Nazaré e os tambores do candomblé. Evoé, colofé. Ou o mundo se brasilifica, ou vira nazista. As sábias palavras do grande artista antecipam uma nova era. Essa riqueza fonográfica do Brasil tudo indica: não deixa os portuguais morrerem à míngua. O verde-rosa nos dignifica. A grande obra aqui habita. A vida se enternece.


