A garçonete
A cor de teus dedos
Destinando o romântico sorvete.
Sou um suado e sagrado trabalhador,
Como você.
Atendente, atende meus pedidos.
O olhar teu, ó moça,
Lembra a noite que passei,
De anseios,
Nos braços do meu amor, virgem
De lábios.
Hora toda a atendente
Rosa diz bom dia, rimando.
Rosas traz da cozinha,
Os mais ricos pedaços.
Alimentei meus sonhos,
Te olhando.
A senhora não há de ser descoberta
Pela minha esposa,
Nem eu pelo seu marido.
Namoramos em segredo.
Tirar sua roupa
Não está nos meus planos.
És a flor das não-comidas.
A senhora digna, dura e de saias,
A quem somente amamos.
O café esfria, atendente,
Mas permaneço a contemplar-te.
Vens agora limpar a mesa,
E é com dignidade.
A piedosa garçonete
Lembra-me Maria.
24 Dezembro 2006
23 Dezembro 2006

Encantadores de rua
Em homenagem ao grupo Quase Impossível Performances Circenses,
de São Leopoldo/RS
Fazem o que ninguém faria,
Engolir fogo.
Não são artistas,
Mas encantadores de rua.
Não são mambembes,
Mas residentes do espetáculo
Esquecido.
Se transitam de farol
Em farol,
Ora segredando suas proezas,
Ora sabendo distribuí-las em troca
De dinheiro,
São também vindos de pequenos incidentes
Da nossa vida cotidiana.
Ó trapézio,
Que grandioso entendimento.
Não te cales, malabares.
Estes artistas de rua sonham com
A criatividade escondida
Nas próprias ruas.
São nossos sonhos dormidos.
Levantam a capa que cobre
O dia-a-dia,
Onde nos vemos incrivelmente nobres
E capazes.
Seremos todos artistas,
Um dia,
Sublime maneira de subir na vida
E continuar sendo pobres.
Porque do pó viemos,
Sem destino que não seja
O brilho de sonhar
Menos com a vida verdadeira
E mais com a de mentirinha.
10 Dezembro 2006
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