30 Setembro 2007

Arqueiro negro (o futebol)

O pai é arqueiro negro.
O pai incendeia o corpo.
O artista voltas dá
E piruetas.
Vô negro brinca onde
O batuque e a ginga
Incendeiam.
O gol neles é uma conquista
De bebês antigos
Marinheiros.
O rolar do malabarismo é
Oração esquisita
Em corpo de índio.
O posto da bênção
É o gol.
O roleio astuto e divino.

17 Setembro 2007

Ensaio sobre a cerveja

Divirto-me, arado de perdas, de pratas, de prazeres.
O feitiço das rondas noturnas e das cervejas,
Dos corpos cortados pelo vício.
Hordas crescidas, hospitais e cruzes.
Quelemém cria-se um virtuose,
No vivo de Rosa e seus costumes.

Horda confusa, roubada no lato sentido
Do urbano perfume.
Ah, livros, e litros e litros desta espuma,
Desta ponta de saliva entre todos os valos.

Modesta rima, reinante pluralidade
De colibris encrustados.
Livro honesto.
Filosofia no que tange
Ao sorvo do líquido meritório do verso mínimo.

O léxico dos fartos mínimos.
O frio perdão das cadeiras de alumínio.
O pedregal de brutos conceitos.
A crosta da concha não-macia,
O vinho no altar de um quase não-beijo.

14 Setembro 2007

Negro cego, cristo do coito

Cristo novo,
O negro come cego
A negra crística,
O pó dum negro artista.
Cristo do coito-perdoado,
Lavado em fartos peitos
De poesia rosa.
Cristo antigo que recebe
A cor negra por Nossa Senhora.
O rosto bondoso é o infinito,
A brancura nossa e
N'altura Vossa.
A vizinha mina
E túnel de água boa.

Ah, Jesus moreno e cru,
De pomo cujo beijo
É um bico de pena.
O lar será dogma,
As saias desta deusa,
O desatino entre minhas pernas.

Roda meu léxico deixado
Como gozo latino.
Avisto a pomba-gata guerreira,
Fazendo arruaças com meu pinto,
Meu pedaço de carne à boca.
Mastiga o néctar homérico.
Rói androposturas.
Alivia o moço aviltado
Por séculos de história
Viva e crua.

10 Setembro 2007

O lado maloqueiro de Porto Alegre

Para Zé da Terreira

Os homens olham o coito.
Há negros loucos, neguinhos vadios,
Queridos e netos do estrume benfazejo.
Ah, noite divina, raiz do mato, reggea outro,
Negra luz sobre o povo enigmático
Das encruzilhadas de Porto Alegre
E dos nus arrancados astrologicamente.
Há sacis bebês ativos
Nos galos latinos
Desta ardente povoação que eu pinto.

O povo gosta da grossa, macia e escura coxa.
O crescente perdão do pai
Enquanto a mata rejuvenesce.
O ar divino e redentor.
O lado maloqueiro de Porto Alegre
É moleque e dono de uma paixão silvícola:
A natalidade homenageia o lúbrico amor
De uma gente arteira:
Os neguinhos que fazem "bolo" na esquina.