05 Janeiro 2009

A glosa (ou o gozar com os ouvidos)




Glosar-se. Procurei o que é glosa no dicionário. Eu havia usado duas vezes essa palavra, nos poemas. Pelo dicionário, glosa é: 1. nota explicativa de palavra ou texto; 2. anotação marginal ou interlinear; 3. crítica; 4. composição poética a que servem quatro versos de uma quadra.

A luz do abacate é o meu glosar-se poético. Aqui estará a crítica, mas crítica estilo modinha, menos chata e arrependida. Glosa. Acho que o estilo poético vem do Caetano. Tem aquela música, "Boas vindas" (sua mãe e eu, seu irmão e eu...). No meio das boas vindas ao novo filho Zeca, Caetano resume as coisas boas da vida (eu digo que ela é gostosa) em versos que anunciam à criança que chega o que a vida tem: o medo, a rosa, a prosa, a poesia, a glosa.

A glosa, eu digo que ela é gostosa. Pinto coisas nos poemas que não sei de onde vêm. Como no verso em que se diz de um "glosar-se rumoroso, homérico".

O glosar-se rumoroso. Quero este rumo. Ricos de Homero devem ser os países. O glosar-se seria este amor em forma de verbo. Chutei no verso da glosa. A glosa do dicionário é uma. A glosa que ficara em meu ouvido, através da música do Caetano, totalmente outra.

A crônica é doce? As uvas, quantas podem estar estragadas? O véu da noiva protege? Parece-me que o bom verso surge por uma espécie de orientação auricular, como num solfejo. A beleza nos habita como desejo por plenitude. Meu processo criativo diz isto: o normal é um gozar com os ouvidos.

A vida leva-nos a esta busca por espelhos sonoros. As palavras, os versos, um gênero inteiro. Mais recentemente, o que era basicamente memória auditiva vincula-se à visualidade da televisão e do cinema.

O menor ponto sonoro ativa mil beijos na manhã do mundo. O ser ganha vocação pela originalidade de seu nome. A vida só pode ser boa. Cada palavra, então, guarda uma rosa, como uma noiva a ser desposada. A "glosa" brota da nossa verve de pronunciar o mundo como vaso que comportará um significado. Mas sua bela sonoridade já estava antes pronta.
Na ilustração, capa do disco Circuladô (1991), de Caetano Veloso, onde consta a mencionada música, "Boas vindas".

1 comentários:

Wagner Marques disse...

soa estranho, "glosar-se"!