
O medo povoa imaginários. Sonhamos a partir da falta. O ângulo novo que cada cultura instaura de amor erótico reflete o medo ancestral instaurado, por sua vez, pelo mito. A novela “Caminho das Índias”, que começa agora a ser transmitida pela Rede Globo, acenderá o temor dos brasileiros aos deuses indianos? O conhecimento da divindade jamais acontece longe da música. O arco a partir do qual o Brasil surge como nação aponta na direção do desconhecido.
O mito novo aquece uma cultura quando o medo impera. O antigo retorna. Como na música, a telenovela atira a alegria de romances para o futuro. O Brasil pensa sobre si mesmo quando assiste à telenovela. Com isso, começa a atirar flechas em direção ao futuro. Em “Caminho das Índias”, o mito canta o ardor indiano em favor do recato sexual. O arquétipo da mulher indiana continua sendo o segredo de um corpo coberto por véus.
O recato feminino é o contrário do que prega uma mitologia brasileira, onde, apesar do catolicismo oficialmente hegemônico, imperam divindades femininas erotizadas, como no caso de alguns orixás pertencentes à nossa matriz religiosa africana. E, mais ainda, como no caso de divindades pertencentes ao panteão gerado pelo cruzamento das mitologias africana e indígena. O corpo, nestas mitologias, comumente é mostrado nu. Juliana Paes, na novela, interpreta a mulher típica indiana, através da personagem Maya. Porém, seu amor aspira a uma quebra nos costumes da tradição. O amor romântico a leva para a forma ocidental de casamento, onde o ato do enamoramento responde ao impulso da paixão.
Sexualmente falando, o casamento é responsável, em qualquer cultura, por ampliar a área de castidade da corporificação dos mitos. Significa que o ato sexual, praticado com devoção, entroniza o parceiro: o noivo torna-se um deus; e a noiva, uma deusa. A proteção ao parceiro exige conter uma possível fuga em direção a outro casamento. Neste contexto, o processo pelo qual o Brasil entronizou a mulher nua (aberta a todos, como se pode ver nos desfiles de Carnaval) torna-se de compreensão mais nítida.
A brasileira típica, por mais que se conteste, é representada pela morena de quadris avantajados, muito semelhante, a propósito, a Juliana Paes. A filha natural do Brasil é essa mulher. O ato romântico anterior ao casamento, no Brasil, encontra-se amplamente sexualizado. Essa sociedade casa-se longinquamente com o mito da abundância. A filósofa Marilena Chauí relata o quanto o mito fundador brasileiro corporifica a idéia da existência possível de uma terra sem males – o paraíso, ou eldorado – há muito tempo prometida. À época do descobrimento do Brasil, Portugal havia descoberto também o “caminho das Índias”, uma rota comercial marítima nova acima das possibilidades tecnológicas de então. Havia a crença de que o Brasil poderia representar a posse, para os portugueses, de uma nova e promissora Índia.
O manto que cobre a mulher indiana não abole o desejo. Pelo contrário. No Brasil, a música cadenciada ordena o casto relacionamento com as mulatas do samba. A mulher é soberana a ponto de acuar o macho. Com corte profundo sobre o arquétipo oriental de contenção do desejo, o Brasil instaura o medo por um fruto não proibido. O alto respeito à mulher, à casa e à terra (à natureza, pode-se dizer, em apenas uma palavra), que ainda não vigora em nossa pátria, poderá nos elevar à condição de uma civilização altamente desenvolvida, a exemplo da própria Índia. Ver a novela, agora, pode estar sendo o alimento necessário à valorização de nossa própria cultura.
O Rio de Janeiro continua a ser o cenário “oficial” das novelas da Globo. O mito da terra da beleza encontra-se ancorado na Baía de Guanabara. O medo instaurado na antiga capital pela guerra do tráfico repercute nessa mudança de cenário da novela? O mito artisticamente se constrói. O caminho das Índias proposto por Glória Perez é inspirador. Talvez nos ajude a finalmente encontrar a rota de um Brasil profundo amplamente representado em tradições onde o colonizado perde a escravatura, passando a conduzir o cortejo, e onde a mulher anda com belos mantos que tudo mostram.

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