08 Abril 2009

O medo maior



Nada adoça tanto o animal feroz que somos quanto a dor e a morte. O céu mitológico brasileiro espelha a coleção de vozes que escuta-se quando se acredita no mito. O arco ameríndio eleva a morte de uma maneira diferente da do arco cristão. Onde se pode ver espinhos, como no caso da coroa de Cristo, o mito indígena cria estrelas.



A flor do pequizeiro docilmente representa a morte em um mito carajá. O ar do Cerrado rotativamente adormece impregnado deste mito. O que se chama, aqui em Goiás, de “regional”, quando se fala dos gêneros musicais, espelha a lembrança deste mito. O antigo povo dono da terra sonha que do alimento celestial se faz o alimento do corpo.



O sertanejo, enquanto gênero musical, sonha com o lamento divino da cruz cravada no peito. O garoto das duplas, com seus trinados celestiais, anima garotas nas platéias. Como saber qual o mito que o governa, o cristão ou o indígena?



Num sábado recente, eu e Sílvia recebemos em nossa casa o cantor e compositor Rodrigo Mota Lins para um evento musicial e gastronômico que terminou, do ponto de vista mitológico, em um alimentar com porções de estrelas o coração amplo de todos que ali estavam. O sertão mítico brasileiro ainda não foi amplamente desbravado pela arte - e, no entanto, tem conseguido permanecer no imaginário popular hoje amplamente forjado pela mídia. O amor de um mito caboclo nos uniu.



Também presente naquela noite, meu aluno Fabrizio Giuvanucci nos havia presenteado com o antológico Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges. O amplo morrer de Milton nesse disco, gravado em 1972, reflete a dor de um país conflagrado pela luta entre o governo militar e a esquerda articulada em torno de estratégias de resistência, como a guerrilha.



Como a arte ecoa o tempo histórico e o mítico, a Canção da América, que Milton gravou mais tarde, no álbum Sentinela, de 1980, evidencia uma certa expectativa pela volta não apenas dos que foram para o exílio em decorrência da ditadura como também de uma negra ama que alimentasse o mundo com sua riqueza em ouro mítico. Fala a letra da música:





Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou ao ver o seu amigo partir.





“A canção que na América” Milton ouviu era a mesma que hoje se insinua no crescente movimento de resgate dos ritmos regionais brasileiros que, em Goiânia, recebe a coloração típica do Cerrado. O povo alimenta-se de todo alimento dionisíaco que erija bons mitos. O dionisíaco verte um novo momento de criação musical brasileira. Em San Vicente, uma das faixas de Clube da Esquina, Milton prevê sentir um “sabor de chocolate”:





Coração americano
Acordei de um sonho estranho
Um gosto de vidro e corte
Um sabor de chocolate
No corpo e na cidade
Um sabor de vida e morte.





Os versos assemelham-se à oração que Rodrigo, em uma de suas composições, dirige à “mãe natureza” alimentando o Brasil e o mundo com pés de frutas do Cerrado. O corpo colorido das florestas brasileiras cativa o sonho da população mundial. O amor universal tornou-se um projeto histórico cristão. No entanto, somente a floresta amazônica, enquanto musa/moça inspiradora, será capaz de renovar o sonho da paz.



Os Kamayurá, povo indígena do Alto Xingu, relacionam a flor do pequizeiro à genitália feminina. A divindade adoçou o cheiro da flor. A moda do gosto pelo Brasil, no exterior (o que inclui a música) evitará a destruição do Cerrado e, por consequência, da Amazônia. Quando o mito de um povo cresce, os hábitos mudam. O mito brasileiro da docilidade do seu povo esgotou-se frente à guerra social. O sonho de uma América como revolução renova-se. Pintar o novo amor é homenagear o guerrear caboclo e brasileiro. Rodrigo canta perguntando: “É um pé de quê” o que nasce no Cerrado? É um pé de carne e glosa de o nosso povo.




Na ilustração: foto do pequi

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