20 Janeiro 2009

Esporão negro, revelai teu povo



Nego escuro-queimado,
Fogo de labareda,
O dono do mato é teu rei:
Quero tua pilastra.
Fostes crucificado,
Negro escuro do mato.

Sonho com isso:
A pele escura.
Cor do mito angélico,
Nova Jerusalém foi a Bahia.
A gostosa culpa dos padres
Endomoniando-se, pelados
E cativos da sensualidade
Índia e negra.

Ah, escuridão marítima.
A cruzada portuguesa rodou o mundo.
Massa inculta e franca,
Toda a tua laica vertigem
É sabedoria celeste,
Teu santo currar-se,
Tua alegria boba.

A moça é receptáculo da cruz.
A malícia urbana me sublima.
Há mortes de galos na cruz.
Esporão negro, revelai teu povo.
Seu manto se faz de latas e
Sem-nomes de pequenos entulhos,
Em escala industrial.

16 Janeiro 2009

Disco oracular


Disco oracular,
Música ressonhada
Em mistura de blecks,
Paus e verdades estrangeiras.
Estranho caldeirão cultural,
Cordão de possante androginia,
Porta-bandeira do mundo.


A porteira é grande,
Todo mundo passa.
O verdadeiro músico é não-restritivo
Em seus batuques.
Oito massas suaves
De toques angélicos,
Orientais.


Poesia, põe-te no passo
Destas procissões conjuntas.
Põe tua mesa na curiosa
Noite musical que não atordoa
Os vizinhos,
Nem os cansa, mas acorda-nos
Bons filhos e
Condena maus sonhos.


Volição da massa:
Ser inclassificável,
High tech.


Soraia, volume dos seios.
É portentoso o teu menino.
Minha suntuosa reboladora,
Mortalmente africana.
Decana musa do gozo
No areal de Pessoa.
Ensina-me a ser mole água,
Que funde totalidade marítima
De todas as euforias sonoras.
Na ilustração: maracatu rural

13 Janeiro 2009

Flora de maio



Ai de tudo,
Dona do manto dolente,
Flora de maio.
Melhor sonar do mor dócil marulho.


Concha achou o marujo.
Grotões de um mar de sussurros.
O lado gostoso soltava vozes quentes
De bonificada filha.
O ato molhado de povoar o futuro
Perdoava o roçar-se de pedra.


Soraia, pranto solar.
Estica os cabelos.
Sonhos solares.
A cada gota de teu mênstruo
Implodi do laço, a vincular-nos,
O domínio.


Saio.
Solidão do músico.
A concha rompe em vozes.
Volição do mar:
Segredar novas sinfonias,
Noivas ordenhais.


Moreno,
Roça teu ouvido no pasto portentoso.
Romeiro, massa do mundo,
De tua cópula dourada e sem feridas
Depende a nova forma de tudo.
Na ilustração: orixá feminino Oxum.

06 Janeiro 2009

Errática



Vivo e mereço lento alvorecer.
Olho o porto sossegado do mistério.
Moreno, Homero,
Retrato do moço curvado e fogoso,
Ciclo do sagrado fogo,
Receptáculo.
Moreno,
Sou mulher do espaço luminoso,
Ângulo mitológico.
Mênstruo sonhado,
Sexo de antes do tempo,
Disto um milhão de anos.


Errática.
És errática como sonho,
O melhor sonho.
Não fazes nada, és tudo.
Dominas a imagem.
Doce e distante.
Mar anterior ao existente.
Símbolo, potência de mundo.
Os quadros organizam
Tua sonoridade:
Bela como o vaso do que se perdeu.
Meu sono de verde dominação
Despe-me do homem animal.
Cresço no manto de teus desejos.

05 Janeiro 2009

A glosa (ou o gozar com os ouvidos)




Glosar-se. Procurei o que é glosa no dicionário. Eu havia usado duas vezes essa palavra, nos poemas. Pelo dicionário, glosa é: 1. nota explicativa de palavra ou texto; 2. anotação marginal ou interlinear; 3. crítica; 4. composição poética a que servem quatro versos de uma quadra.

A luz do abacate é o meu glosar-se poético. Aqui estará a crítica, mas crítica estilo modinha, menos chata e arrependida. Glosa. Acho que o estilo poético vem do Caetano. Tem aquela música, "Boas vindas" (sua mãe e eu, seu irmão e eu...). No meio das boas vindas ao novo filho Zeca, Caetano resume as coisas boas da vida (eu digo que ela é gostosa) em versos que anunciam à criança que chega o que a vida tem: o medo, a rosa, a prosa, a poesia, a glosa.

A glosa, eu digo que ela é gostosa. Pinto coisas nos poemas que não sei de onde vêm. Como no verso em que se diz de um "glosar-se rumoroso, homérico".

O glosar-se rumoroso. Quero este rumo. Ricos de Homero devem ser os países. O glosar-se seria este amor em forma de verbo. Chutei no verso da glosa. A glosa do dicionário é uma. A glosa que ficara em meu ouvido, através da música do Caetano, totalmente outra.

A crônica é doce? As uvas, quantas podem estar estragadas? O véu da noiva protege? Parece-me que o bom verso surge por uma espécie de orientação auricular, como num solfejo. A beleza nos habita como desejo por plenitude. Meu processo criativo diz isto: o normal é um gozar com os ouvidos.

A vida leva-nos a esta busca por espelhos sonoros. As palavras, os versos, um gênero inteiro. Mais recentemente, o que era basicamente memória auditiva vincula-se à visualidade da televisão e do cinema.

O menor ponto sonoro ativa mil beijos na manhã do mundo. O ser ganha vocação pela originalidade de seu nome. A vida só pode ser boa. Cada palavra, então, guarda uma rosa, como uma noiva a ser desposada. A "glosa" brota da nossa verve de pronunciar o mundo como vaso que comportará um significado. Mas sua bela sonoridade já estava antes pronta.
Na ilustração, capa do disco Circuladô (1991), de Caetano Veloso, onde consta a mencionada música, "Boas vindas".

03 Janeiro 2009

As nautas de saias


A cega gira em árvores antigas.
O divino gozo homérico,
A parteira altiva.
O negro homem branco.
O cérebro másculo
Recebe o olhar guerreiro da deusa.
O corte profundo e nupcial.
A lentidão do gesto olímpico.
Olhos esquerdos atentos.
O seio ardente, o furor.
O cocar caboclo.
Enigma em barriga de
Menino arteiro.
O ponto do poeta era o pinto.
A era triste acabou.
O moço noivo retira a cruz
De sua espada.
O alimento ama o mênstruo,
O céu anterior ao mito.
O abacate abre-se enquanto livro.